Lolita

11 de maio de 2009
in Category: Resenhas
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Lolita

Lolita

Lolita é impressionante. Paradoxal. Ao mesmo tempo em que o leitor passa a amar e admirar o Sr. Humbert Humbert (personagem principal) pela sua profundidade sentimental, seu eruditismo, também o odeia da forma mais suja e inexorável como a todo pedófilo.

Ele descreve as mais belas declarações de amor, mais apaixonadas, mais sinceras… É de se umedecer os olhos ao ver o protagonista humilhado e rastejando aos pés de sua amada. Amada esta que o seduz, o domina, faz dele seu escravo e tira-lhe – além de muito dinheiro – toda sua dignidade, mantendo-o um apaixonado da primeira à última palavra do livro.

lolita

Obviamente que o pedófilo é um ser desprezível que nos desperta o mais violento sentimento de ódio. Mas o Sr. Vladimir Nabokov (autor) quase nos faz inverter os papéis (criminoso e vítima), ao demonstrar tamanha maldade e indiferença inata de certas mulheres têm quanto aos sentimentos de um pobre homem apaixonado.

Isto só me fez pesar um pouco mais a balança em favor dos escritores russos. Tenho a impressão de que os russos entendem ou sabem expressar melhor os meandros dos sentimentos humanos.

Certa vez, li um texto de Arnaldo Jabor que exaltava ao amor e a forma de como estava sendo esquecido ou substituído por sentimentalismos fugazes, superficiais que nada mais eram do que alusões pobres e iníquas à sensualidade. Ele usou como exemplo de uma verdadeira demonstração de amor o filme Hable con Ella de Pedro Almodóvar.

Achei o filme um lixo – ou não o entendi, como diz minha amada esposa – mas se pudesse dar um exemplo referencial para um romance que exalta o mais puro e verdadeiro amor é Lolita.

Desde que, claro, faça-se certa força para controlar aquele senso de moral hipócrita que nos sussurra o tempo todo no ouvido durante as passagens de sexo e de admiração lasciva pela petite.

Ao fim do texto, o autor insere uma belíssima nota, contando alguns detalhes sobre a gestação da obra e dos problemas que enfrentou quanto aos moralismos e tendências literárias. Ele comenta que as editoras davam preferência aos livros banais que mantinham a mente das pessoas sob certo controle cultural ao exercício de quebra de tabus e aprofundamento em questões digamos, “complexas” (algo que, tenho a impressão, ainda acontece atualmente).

Vale um Capuccino
4 out of 5 stars

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2 comments on “Lolita”

  1. Comprei o livro na feira do livro de Porto Alegre por 10 reais. É um antigo promocional da rbs, portanto não sei se a tradução é boa. Estou com pouco tempo para lê-lo pelos textos da faculdade, mas dei uma folhada. Achei ele meio idigerível, talvez eu seja sensível demais, mas a impressão que passou é que o personagem como um bom criminoso e pedófilo tenta o tempo todo nos convencer que era Lolita que seduzia e não ele. Essa é na verdade a grande arapuca dos pedófilos: fazer com que a vítima na sua alegria juvenil de doze anos de idade, descobrindo o seu novo corpo e sensualidade se sinta responsável pela tara da pessoa com bem mais idade e com muito mais experiência. É bem aquele papo: no fundo, no fundo você também quer. O mesmo papo que muitos dizem sobre mulheres(ou homens) que são espancadas pelos maridos(esposas): no fundo ela gosta, se não gostasse se separaria. O que acontece é que a vítima está envolvida em um jogo sado-mazoquista onde o algoz faz sempre o que bem entende e a seduz com seus pedidos de perdão). É uma armadilha nojenta que para mim é pior que estupro. Nenhuma pessoa é tão injênua e com certeza muitos escravos sexuais que devem existir por aí sabem muito bem como virar o jogo e tirar vantagem da sua escravidão. Na História brasileira temos a figura, que não deixa de ser uma figura satírica, da negrinha moleca que enlouquece o sinhozinho nos tempos de escravidão. Não passa de uma grande desculpa para se ter escravos. Acontece porém, que, tirando vantagem ou não, eles CONTINUAM sendo escravos. Lembrei daquela menina européia, não lembro o nome agora, que passou oito anos presa por um homem e quando ela fujiu ele se matou. Parece que quando ela soube da morte chorou muito. Uma criança morando e crescendo com um adulto que a abusa, não tendo a convivência com mais ninguém, fica impossível não existir sentimentos de amizade e amor. Enfim, é o que chamam de síndrome de estocolmo. É provável que nessa relação ela também aprendeu a usar suas armadilhas de sedução e “mandar” muitas vezes no pervertido. Ninguém também consegue explorar uma pessoa o tempo inteiro. Imagino que essa seja uma verdade nas relações humanas. Vejo hoje as meninas pré- adolescentes com seus corpos novinhos, os pequenos seios que crescerão mais ainda, suas risadas, olhares, movimento. Tudo é novidade, usando roupas novas, experimentando o primeiro decote, o primeiro sapato de salto,o primeiro sutiã, primeiro beijo, menstruação,o desejo descoberto, seduzindo os meninos e os homens. Para elas é um mundo novo e é LINDO de ver e é mais lindo por que ao mesmo tempo é muito ingênuo também. Nessa mistura de ingenuidade e esperteza que a nova mulher vai se descobrindo. Não tem como não rir de uma menina de 11, 12, 13 anos contando para você as suas histórias de namoradinhos e festa como se fosse a mulher mais experiente do mundo. Elas devem desconcentrar muitos homens e deve ser para eles realmente muito difícil de conter o desejo. É aí que vem a importância de obras como Lolita, dizem que é importante como catarse. Viva a arte!!!

  2. Lolita é um livro fabuloso, um dos melhores que já tive o prazer de ler. Repleto de camadas e releituras e significados, faz com que o leitor tenha puro ódio do protagonista, mas também consegue nos fazer sentir pena, compaixão, admiração… Ao mesmo tempo considero um livro extremamente maduro e complexo, para le-lo acho necessário por parte do leitor uma cabeça feita e suficiente perspicácia para notar (e não se deixar levar) pelas razões (desculpas) que movem as ações do protagonista. Afinal, mesmo o mundo não sendo preto e branco, mas sim uma infinidade de tons de cinza, é também inquestionável que uma criança é sempre uma criança e um pedófilo é sempre um pedófilo.

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