Nietzsche e a Compaixão

26 de Maio de 2009
in Category: Crônicas
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Nietzsche e a Compaixão

Nietzsche e a Compaixão

Ao ler pela “enésima” vez o livro O Anti-Cristo de Nietzsche, tive a mesma impressão das outras vezes. Quando fala de compaixão, Nietzsche não estava errado, mas não estava necessariamente certo. Parece apenas que seu raciocínio estava incompleto.

Segundo ele, o cristianismo é, senão o maior, um dos maiores inimigos do progresso humano, pois fomenta, entre outras coisas, a compaixão. Segundo o livro:

“[…] A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece. Através da perda de força causada pela compaixão o sofrimento acaba por multiplicar-se. O sofrimento torna-se contagioso através da compaixão; sob certas circunstancias pode levar a um total sacrifício da vida e da energia vital – uma perda totalmente desproporcional à magnitude da causa (o caso da morte de Nazareno). Essa é uma primeira perspectiva; há, entretanto, outra mais importante. Medindo os efeitos da compaixão através da intensidade das reações que produz, sua periculosidade à vida mostra-se sob uma luz muito mais clara. A compaixão contraria inteiramente lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Preserva tudo que está maduro para perecer; luta em prol dos desterrados e condenados da vida; e mantendo vivos malogrados de todos os tipos, dá à própria vida um aspecto sombrio e dúbio. A humanidade ousou denominar a compaixão uma virtude (– em todo sistema de moral superior ela aparece como uma fraqueza –); […]”

anticristoSeu primeiro engano é referido à citação do cristianismo. Não sou especialista no assunto, mas pelo que me consta Jesus não falava de compaixão nem incentivava a fraqueza. Ele falava de amor ao próximo e de engrandecimento do espírito. O que são coisas completamente distintas. Não coloco em voga o restante da bíblia.

Mas, embora eu seja simpatizante, meu ponto não é advogar sobre o cristianismo. Notem bem: Eu escrevi cristianismo. Não estou fazendo apologias a quaisquer igrejas católicas apostólicas romanas ou evangélicas. Que para mim são todas elas formas evoluídas de circos. Com picadeiros, atrações, músicas e palhaços.

Meu ponto é a compaixão. Ela, por si só, é apenas um sentimento. Ou seja, algo que se sente e que não tem necessariamente por conseqüência uma ação. Não afeta, portanto, o indivíduo externo àquele que a sente.

Nietzsche disse que a compaixão “faz e acontece”, quando na verdade o que “faz e acontece” são as ações motivadas pela compaixão. Ele então é assertivo ao verificar que a grande maioria destas ações não está corretamente direcionada para a resolução do fato que causou o compadecimento. Pois visam uma resolução imediata e do problema, a fim de anestesiar a agonia do indivíduo alvo da compaixão, sem perceber que este alívio imediato causa enfraquecimento. É a velha história da borboleta saindo do casulo: Se você compadecer-se com a sua dificuldade ao romper o casulo e ajudá-la, ela jamais voará. Pois o esforço que ela empreende ao romper seu claustro é imperativo para o fortalecimento de suas asas.

(Conheço casos de profissionais incompetentes que são mantidos “trabalhando” por mera piedade – resultante negativa da compaixão -, quando em verdade deveriam ser lançados à lona a fim de que tenham consciência de sua realidade e assim reagir contra ela.)

Sendo assim, Nietzsche teria sido mais coerente ao atacar falta de consciência humana sobre que tipo de ações deveriam ser tomadas quando nos compadecemos sobre algo e não necessariamente sobre o sentimento em si. À menos que a idéia dele era de que voltássemos a viver em cavernas.

A compaixão é inegavelmente necessária para a evolução progressista da humanidade. Propor que adotemos a premissa de que o mais forte sobrevive, significa regredirmos às épocas mais primais e desprovidas de inteligência. A comoção do mestre pelo discípulo, a comoção da mãe pelo filhote, a comoção da sociedade sobre determinados problemas coletivos levam à evolução progressista.

É necessário, entretanto, que ao brotar-lhe no peito a compaixão, a ação motivada por ela seja algo que fomente o fortalecimento e não à resolução imediata. Para “aclichezar”: Ensinar a pescar, mas jamais dar o peixe.

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9 comments on “Nietzsche e a Compaixão”

  1. Fantástico o que escreveste, concordo plenamente com você. A leitura deste texto me ajudou muito em um trabalho sobre ética. Parabéns!!!!

  2. não entende e Nietzsche e vai falar bosta srsrrs

    1. Claro que ele entende. Entende do jeito dele , o qual discos do seu, do meu e assim sucessivamente. Não existem formas corretas de interpretar, existem interpretações. E Nietzsche senão me engano tem uma frase nesse sentido!!
      “Não existem fatos, apenas interpretações”

  3. Sr. Doraci Natalino de Souza disse:

    Bom dia a todos!

    Penso que a sua frase sobre o engano de Nietzsche é muito infeliz, a única coisa que salva sua infeliz frase foi confessar anteriormente que não entende de teologia ou cristianismo.

    Saiba, colega de produção literária, que, a meu ver, Nietzsche perto de nós e dos maiores especialistas em religião que existe no país, está anos luz na frente e nem se pode comparar assim como você fez, tão simploriamente.

    Nietzsche vem de família luterana, mas não de qualquer família, família de militantes no cristianismo luterano, família de Teólogos.

    Teve uma formação cultural na Alemanha sem igual, sem comparação; abandonou o seminário teológico ainda moço; formou-se, com brilhantismo jamais conhecido na matéria chamada Filologia.

    Veja onde eu parei de ler seu artigo:

    “Seu primeiro engano é referido à citação do cristianismo. Não sou especialista no assunto, mas pelo que me consta Jesus não falava de compaixão nem incentivava a fraqueza. Ele falava de amor ao próximo e de engrandecimento do espírito. O que são coisas completamente distintas. Não coloco em voga o restante da bíblia”.

    Aqui fica claro que você não tem menor ideia, nem do que fala sobre Jesus de Nazaré e muito menos consegue fazer a diferença entre o pensamento de Jesus de Nazaré e o pensamento que foi construído sobre ele, Jesus de Nazaré, filho do Carpinteiro, pela instituição do cristianismo e da Igreja, pela teologia sistemática que sofreu grandes influências da filosofia grega clássica, principalmente do “platonismo”, vindo tudo isso sobre nós em forma de processo civilizatório, cultural, digamos assim, como temos hoje.

    Ele, Nietzsche trata de uma reflexão contra-cultural.

    Jesus de Nazaré que para ele, Nietzsche, era perfeito, não precisava de qualquer emenda, vamos assim dizer, em seu especial contexto, claro, não tem nenhuma relação com o Jesus Cristo e Redentor construído pela história da Igreja Cristã.

    Aqui está, em outras palavras, a fonte inicial, neste caso, do pensamento crítico de Nietzsche.

    Essa foi a razão pela qual parei de ler o seu texto, mas voltarei a ele, porque gosto muito de quem pensa diferente de mim, por isso gosto de ser respeitado também.

    Inclusive o que você cita no texto sobre o amor ao próximo pregado por Jesus para criticar Nietzsche, com certeza nem passava pela cabeça dele, porque para ele, Nietzsche, o pensamento de Jesus estava correto, mas não as construções e invenções feitas posteriormente no desenvolvimento cultural cristão.

    O que ele, Nietzsche, está a condenar é o pensamento que se construiu, depois de Jesus, já sob a designação do Redentor, Ressurrecto. Sim, aquele que se levou a termo e se enfiou goela abaixo de todos nós.

    É só fazer uma breve pesquisa sobre o entendimento dos melhores psicanalistas, como por exemplo: Flavio Gikovate, de saudosa memória, a respeito do amor em nossa cultura judaico-cristã que poderemos ver o resultado: certamente ele vai dizer que esse sentimento que chamamos de amor tem origem em experiências negativas, ele parte da falta, talvez até a falta da mãe..

    No pensamento de Nietzsche, assim penso, neste caso do amor cristã, esse sentimento nega a vida, mas o amor na perspectiva de Jesus de Nazaré é outra coisa: afirma a vida, não parte da falta, mas do sobejamento de vida, assim como ele coloca na Parábola do Bom Samaritano.

    Quem era esse bom samaritano?

    Os que passaram de largo, os religiosos, aqueles que correram para buscar o que faltava em seus corações na Sinagoga? Claro que não.

    Mas o bom samaritano.

    Aquele que da parábola, que pára, interrompe a viagem, cuida do semimorto e do que lhe sobejava e generosamente doou ao enfermo, sem qualquer negociação interna ou externa tudo que tinha e muito mais, porque simplesmente lhe sobrava generosidade.

    Parabéns pela sua coluna e pela sua coragem em escrever, mas cuidado e quando digo isso a você digo a mim mesmo, temos todos que ter cuidado ao ler, interpretar e escrever, veicular os nossos pensamentos; moderação é o mote!!!

    DoracíNatalinodeSouza – doracins.consultoria@gmail.com

    1. mm Douglas disse:

      Sr. Doraci,

      Primeiramente, muito obrigado pelo comentário. Sinto-me verdadeiramente honrado por terdes dispendido seu tempo para ler comentar meu texto. É evidente que seu conhecimento é superior ao meu – ao menos no instante quando este post foi escrito, há quase dez anos atrás – e, portanto, não tenho a menor intenção de replicar sua explanação.

      Mais de uma vez já pensei em retirar este texto do ar, justamente pelos apontamentos que o senhor propõe e, sobretudo, pelo fato de eu já ter mudado muito meus pontos de vista desde a data em que ele foi postado.
      Mas, vale ressaltar, que a ideia que eu procurei demonstrar com este curto ensaio era tão somente a importância da compaixão em nosso meio social. A referência à Nietzche foi apenas uma alegoria que, talvez erroneamente, utilizei para exemplificar o pensamento exposto por ele, de que compaixão é uma demonstração de fraqueza.

      Todavia, relendo o trecho de O Anticristo: “A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece (…) A compaixão contraria inteiramente lei da evolução, que é a lei da seleção natural.”, percebo que, independente do respeito absoluto que tenho sobre a inteligência do referido filósofo, ainda discordo dele veementemente.
      Longe de mim, entretanto, criticá-lo. Não teria jamais tal pretensão, dado meu ínfimo conhecimento filosófico geral e, sobretudo, do referido filósofo. Discordar, entretanto, não é criticar.

      Quanto à questão bíblica, o único conhecimento verdadeiramente ponderável acerca da figura mitológica ou real de Jesus é proveniente bíblia, dado que, digamos, este é o único livro “oficial” que trata do indivíduo. Desta maneira, quaisquer análises posteriores sobre a figura de cristo ou a doutrina cristã, independente do seu nível de profundidade, serão só e somente especulações interpretativas. A bíblia é totalmente carente de objetividade, referências e acuidade histórica e ou científicas. E assim, é impossível (e imprudente) para qualquer um alegar qualquer conclusão concreta sobre o que foi e o que queria Jesus.

      Assim, mesmo que Nietzche fizesse tal distinção entre quem era Jesus e cristianismo, do mesmo jeito, não faria diferença alguma em relação ao meu argumento de discordância sobre suas afirmações em relação à compaixão em si. Meu erro, naquele momento, foi meramente calçar o argumento sobre a metáfora do mito cristão que, concordo, é incabível, dado o incomensurável terror que o cristianismo causou física e estruturalmente desde que foi instituído. Mas, abstraindo-se tal detalhe, o qual realmente não era o cerne da minha explanação, minha discordância incide.

      Grande abraço e volte sempre!

      D.

      1. Gabriel Santos disse:

        Você não deve jamais excluir seus “equívocos” (no caso o seu texto). Pois você é o que é hoje graças a eles. Graças ao passado, você é o futuro e agora o presente.
        Com os erros, aprendemos. E eu nem to aqui pra dizer qual a maneira certa de interpretar Nietzsche, mas sim, por luz na questão que mais me tocou na sua resposta.
        Grande abraço!

      2. Ronald Carvalho disse:

        Olá Douglas, sou professor de filosofia e nada vi de escandaloso em suas reflexões. A Crítica acima talvez proceda, mas me parece pouco oportuna porque ultrapassou muito a proposta do texto. Há muita criticidade e pouca sensibilidade. Ela, de forma alguma, retira a legitimidade e a importância do que você escreveu. Eu gostei muito e sugiro que você não retire o texto da internet. Ademais, concordo com o seu ponto de vista. Nietzsche frequentemente transborda. Mas sem dúvida alguma é um grande filósofo. Cordial abraço

  4. Tarcísio disse:

    Caro Douglas, legal a discussão, espero não ser tão deselegante quando esse senhor aí que citou Jesus de Nazaré, parei de ler aí. Eu queimo neurônios lendo e relendo Nietzsche, e as passagens dele tratando da compaixão são realmente de ferver o cérebro. E isso está espalhado pelas obras dele. De fato, ele não tira a ideia da compaixão do cristianismo. Veja a passagem em outra obra dele, Aurora:

    ” “Só se é bom pela compaixão: é necessário, pois, que haja alguma compaixão em todos os nossos sentimentos” – é a moral de hoje! E de onde vem isso? O homem que realiza ações sociais simpáticas, desinteressadas, de interesse comum, é considerado hoje como o homem moral – esse talvez é o efeito mais geral, a transformação mais completa que o cristianismo produziu na Europa: ainda que isso não estivesse em suas intenções nem em sua doutrina. Mas foi o resíduo da mentalidade cristã que prevaleceu quando a crença fundamental, muito oposta e rigorosamente egoísta, de que “uma só coisa é necessária”, a crença na importância absoluta da salvação eterna pessoal, assim como os dogmas dos quais se apoiava, foram pouco a pouco recuando, e que a crença acessória no “amor”, no “amor do próximo” de acordo com a monstruosa prática da caridade eclesiástica, vinha assim ocupar o primeiro plano”.

    É isso, o melhor que entender é descobrir que não entendeu e ter que voltar a ler. Faço isso sempre. rs

  5. Carlos Alberto de Oliveira disse:

    Nietzsche não tece críticas somente ao cristianismo, e em relação à compaixão, ele detona o Budismo, onde a compaixão tem papel fundamental. Se a gente ler atentamente a obra do Nietzsche, vaii perceber que não é necessariamente a compaixão em si que ele deplora, mas a intenção de quem a pratica. Veja bem, a elite brasileira finge não ver a abissal desigualdade social, muitos até se manifestam contra programas sociais tipo Bolsa Família, cujo benefício pecuniário é bem baixo, contudo relevante para famílias em estado extremo de pobreza. Sem contar os ganhos nutricionais e educacionais que estão vinculados ao programa social citado. Pois bem, essas mesmas pessoas que defendem o fim de uma política social necessária e eficiente, no final de ano, no Natal, saem distribuir algumas cestas natalinas para famílias carentes. Isso seria compaixão ou um latente sentimento de culpa, ou mesmo uma forma inconsciente de perpetuar a superioridade. De se sentir bem. É mais ou menos como aqueles escandinavos que saem de férias e vão para a África fazer trabalhos humanitários. Geralmente, tiram fotos com crianças subnutridas.
    Creio que a compaixão é uma virtude, quando ela se propõe a efetivamente dar dignidade a todos.
    Por esse prisma, Nietzsche é importante porque ele nos convida a uma reflexão. Quem em sã consciência criticaria a compaixão? Só o louco do Nietzsche… Rsss
    Ele quebra o paradigma e nos faz ver que a compaixão está aí no coração dos humanos, desde muitos séculos, mas não foi capaz de alterar a realidade injusta da civilização. Por que não se alterou a realidade se a compaixão é tão virtuosa? Nietzsche nos responde : porque está compaixão que ao está não foi forjada com propósito revolucionário. Ela está aí para perpetuar a desigualdade, mascarando a injustiça econômica, e servindo de alívio para o sentimento de culpa de muita gente. Sim, há pessoas que praticam a compaixão verdadeira, mas elas quase sempre são chamadas de loucos.

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