13 de maio de 2016, 10:33 - Cristine
Quadrinhos, Resenhas    sem comentários

Perpetuum mobile, de Diego Sanchez

»» resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 04/05/2016 ««

Perpetuum mobile
Diego Sanchez

Perpetuum mobile, ou moto continuum, é o termo em latim para o sonho utópico dos engenheiros: a máquina de movimento perpétuo. Essa máquina hipotética utiliza – e reutiliza – a energia gerada pelo seu próprio movimento. Apesar da impossibilidade física de existirem – ao menos segundo as leis da física do nosso universo – há ainda quem persiga a construção de tais dispositivos.

Neste quadrinho – lançado inicialmente por financiamento coletivo e agora republicado pela editora Mino – Martin é um eterno insatisfeito. Na cidade fictícia de San Juarez, é ele que vive em moto contínuo, em busca de uma vida que o satisfaça. Suas escolhas podem não ser as mais acertadas, mas ele continua tentando. Em busca de um novo emprego, de um novo relacionamento, de novas experiências. Mas o que fazer com essa busca incessante quando o fim do mundo chega?
continua…

7 de maio de 2016, 10:56 - Cristine
Dicas, Escrita    sem comentários

10 dicas e truques para criar personagens inesquecíveis

»» versão do artigo “10 Tips And Tricks For Creating Memorable Characters”, escrito por Charlie Jane Anders, publicado em 05/08/2014 no io9 ««

Ficção científica e fantasia são feitos de ideias legais e mundos fascinantes – mas essas coisas somente são tão boas quanto as pessoas que vivem ao redor e dentro delas. Como você cria personagens fictícios atraentes? É um desafio enorme. Mas aqui estão algumas dicas que podem tornar isso mais fácil.

Não existe bala de prata ou fórmula mágica para criar personagens que vivem e respiram dentro da sua cabeça (e espero que na das outras pessoas, também). Se existisse, todo mundo estaria usando e isso não seria um desadelo tão grande. EU me debato com isso o tempo todo – minha estória chega ao oitavo ou nono rascunho antes de eu perceber que um personagem importantes ainda é basicamente um pedaço de papel, carregado pelo vento através da história. E depois de alguns anos lutando contra esse problema, cheguei a algumas tátias que me ajudam a imaginar o personagem como um indivíduo único e real, em vez de apenas um papel na trama ou história.
continua…

3 de maio de 2016, 16:34 - Douglas
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O que há em Dom Quixote?

Em todas as listas top 100, top 50 ou mesmo top 10 de melhores livros de todos os tempos, sempre encontramos Dom Quixote. “Por quê?”, eu me perguntava assiduamente. Para responder essa pergunta, pensei: bastava lê-lo. E assim o fiz, confirmando, de fato, que se trata de uma obra magnífica e atemporal.

Entretanto, antes de falar das características literárias da narrativa, é preciso analisar o contexto em que ela foi escrita. Em 1605, quando lançada, a Europa renovava sua cultura. Há pouco tempo terminara a Idade das Trevas, e a Renascesça trouxera o espírito lírico para a população. Começavam os primeiros passos da revolução industrial e a queda da classe da nobreza. Em termos literários, uma forma em particular fazia muito sucesso entre os leitores: a novela de cavalaria.

Esta é uma nova edição da editora Nova Aguilar, comentada por autores clássicos como Dostoievski.

Esta é uma nova edição da editora Nova Aguilar, comentada por autores clássicos como Dostoievski.

Estes livros tinham um formato específico para mero entretenimento. Contavam histórias de nobres cavaleiros que percorriam o mundo em busca de aventuras, lutando contra monstros e reis malvados, resgatando lindas princesas. O sucesso era tremendo.

O único problema disso é que a era dos nobres já tinha começado a declinar e a revolução industrial mostrava a que veio. Desse modo, as histórias de cavalaria estavam mais para uma caricatura do que haviam sido as fantasias medievais. Cavaleiros, princesas e guerras românticas já não era mais parte do cotidiano das pessoas. Pelo contrário: o reinado da Espanha andava em crise com corrupções e guerras mal sucedidas.

Assim, a obra de Cervantes foi – direta ou indiretamente – uma crítica a esta fantasia das novelas de cavalaria. Nela, um fidalgo enlouquece de tanto ler tais obras e resolve, armado de uma velha espada, um pangaré, uma bacia de ferro como elmo, sair pelo mundo em busca de grandes aventuras. E, como se não bastasse, convence um vizinho tolo a segui-lo como escudeiro, prometendo-lhe grandes recompensas e tesouros.

A narrativa, além disso, não apenas satirizava os romances de cavalaria, mas também trazia uma série de críticas veladas à estrutura política e religiosa da época. Coisa que Cervantes teria justificado – e salvado sua pele – com a loucura do personagem. Ciente dos problemas que poderia comprar, Cervantes durante um tempo negou sua autoria, colocando-se como mero organizador.

Gustave Dore - Dom QuixoteDo ponto de vista estrutural, Dom Quixote tem a exata estrutura da novela: segue a jornada do herói, onde os núcleos de ação são encadeados numa linha narrativa única. É recheada de humor, pois o velho maluco se mete em enrascadas, mas nunca sem perder a pompa de um cavaleiro, enaltecendo o ridículo anacronismo de seu comportamento.

Sancho Pança, por sua vez, atua como uma consciência, a razão que o fidalgo perdeu. Porém tola, pois acaba deixando-se levar por ser simplório e por ambicionar os tesouros prometidos.

Os simbolismos da obra perduraram e influenciaram uma infinidades de outras obras até hoje. Alguns estudiosos afirmam que o conto O Alienista, de Machado de Assis é amplamente inspirado por Dom Quixote. E, realmente, é difícil ler um sem lembrar do outro. Inclusive o tom sarcástico de Cervantes é bem semelhante ao de Machado – ou vice-versa.

BirdmanEnquanto escrevia este post, lembrei-me do filme Birdman, do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. Sem muitas pretensões de crítico de cinema, eu adorei o filme e me dei conta de que, salvo algumas diferenças de contexto, existe um paralelo bem nítido entre o simbolismo do filme e o de Dom Quixote. Ambos são personagens perturbados pela idade e pelas suas fantasias de ser herói. Ambos satirizam os heróis comerciais de suas épocas. Ambos têm escudeiros que são as vozes da razão e ambos teê histórias paralelas de romances e intrigas.

Independente de eu estar certo quanto a isso, é ponto pacífico que Cervantes não apenas escreveu uma história clássica, que acabou por reverberar em todo o mundo da literatura e em todos os tempos vindouros ao seu lançamento, como também muito divertida e engraçada que merece, sem sombra de dúvida, estar sempre entre os top 10 melhores livros de todos os tempos.

Vale um Café Vienense
5 Stars


26 de abril de 2016, 14:01 - Cristine
Resenhas    sem comentários

Arco de virar réu

»» resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 06/04/2016 ««

Arco de virar réu
Antonio Cestaro

“Você vive dentro da sua cabeça. Você não vive no mundo.”

Primeiro romance de Antonio Cestaro – que já tem publicados dois livros de crônicas: Uma porta para um quarto escuro e As artimanhas de Napoleão e outras batalhas cotidianas – o livro conta a história de um historiador social, cujo principal interesse é o estudo antropológico de sociedades indígenas, seus rituais e costumes. Narrado em primeira pessoa, o livro conta a história de um homem de meia-idade, primogênito de uma família de pais separados. Família que, como tantas outras, tem seus problemas: a ausência do pai, a fragilização da mãe, a esquizofrenia do irmão mais novo, Pedro.

arco-de-virar-reu

A doença mental de Pedro se manifesta na adolescência, quando se inicia um descolamento da realidade e ele passa a vivenciar uma guerra imaginária particular. O narrador tenta de alguma forma encontrar sentido nesses delírios, enquanto seu primo, Juca Bala, quer se valer dessas histórias para fazer um filme. Esse mergulho na loucura do irmão desencadeia no narrador pesadelos recorrentes envolvendo rituais indígenas que se mesclam às narrativas de cunho militar de Pedro. A sanidade do narrador vai se esvaindo aos poucos, até ele próprio descobrir-se doente.

“Voltando alguns anos no tempo, concluo que foi um engano pensar que a Carolina me acompanharia destemida por qualquer caminho. Há uma ponte entre a fé e a razão que a Carolina, mesmo com a sua formação em ciências humanas, não estava disposta a transpor. Todo o meu esforço para entender além da matéria e do instinto primário da vida ia ruindo com o conhecimento da complexidade das sinapses e seus caminhos sulcados, que tornam a transgressão uma recorrência obsessiva. Por vezes segua sem o juízo da censura pelos pensamento que seriam do Pedro, e o impacto de antes já não me abalava. Sentia-me só novamente.”
(p.48)

A imprecisão (proposital) da narrativa faz o leitor embarcar nas alucinações do narrador, sem saber – assim como ele – onde termina a realidade e começa o delírio. O narrador, pouco confiável devido ao avanço da doença, carrega o leitor consigo em sua tentativa de descrever e entender o que ocorre a seu redor. Faltam coerência e sentido a alguns fatos da trama. A economia de detalhes faz o leitor se perguntar se o narrador está omitindo os fatos deliberadamente ou se é apenas mais um sintoma de seu estado mental, que o faz focar cada vez mais nos seus sonhos em detrimento da realidade.

A doença do narrador põe em cheque inclusive a existência de alguns personagens – Juca Bala, a Carolina (sua esposa) e dr. Da Veiga existem mesmo ou serão invenções de sua cabeça?

“Apesar de não saber ao certo em que tempo e ciscunstância mudei para dentro da cabeça, depois de resistir e tentar outros entendimento, tive que aceitar que tenho passado a maior parte da vida na cabeça, onde prazeres, afeição e coragem se misturam com ódio, vergonha e medo. E, de acordo com o dr. Da Veiga, um medo que se instala na cabeça com propósito de moradia não é medo normal, é medo complexo, que passa a existir independentemente da influência de qualquer elemento causador.”
(p.112)

O trabalho com a linguagem é primoroso, resultando numa narrativa ágil e envolvente que leva o leitor a se questionar, junto com o personagem, quais os limites entre sanidade e loucura.

Vale um Macchiato
3 Stars

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