10 de julho de 2017, 13:00 - Douglas
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Último Turno – Stephen King

O Último Turno
Stephen King

Em 1996, estreou um filme chamado Big Bully (Inimigos para Sempre, no Brasil). Era uma comédia de humor pastelão estrelada por Rick Moranis (o cientista do célebre Querida, Encolhi as Crianças) e Tom Arnold (um ator que é conhecido por vários papéis coadjuvantes em filmes famosos, mas de quem ninguém se lembra). Embora o filme não seja lá digno de muitos louvores e eu tenha assistido apenas uma única vez, ele ficou encrustado na minha memória de forma bastante contundente.

Pois, na história, onde um escritor frustrado (Moranis) retorna à sua terra natal e acaba reencontrando um antigo valentão da escola (Arnold) que volta a atormentá-lo, há uma cena especial: o escritor está lançando seu livro numa livraria, numa mesa, com certa pompa e pilhas de seu livro, pronto para passar horas autografando. Mas nenhum leitor aparece; apenas consumidores regulares da livraria que nunca ouviram falar dele. E, cada um que chega perto, fazendo-o se aprumar na cadeira, sorrir e preparar a caneta, vem na verdade perguntar “onde posso encontrar o último livro do Stephen King?”.

Uma piadinha assaz boa para o mundo da literatura e sua maioria de escritores desesperados por leitores. Mas, aparte o humor, eu, que já almejava tornar-me um escritor naquela época (tinha uns quatorze anos), desse momento em diante, nunca mais esqueci desse senhor.

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Eu já tinha ouvido falar dele, claro. Já tinha assistido aos renomados filmes de terror dos anos oitenta inspirados em suas obras. Contudo, vergonhosamente, só fui lê-lo mais de vinte anos depois, há poucos dias, quando recebi da Cia das Letras um exemplar de O Último Turno.

Quem vive no meio literário conhece a fama de criador de ótimas tramas, o gosto pelo mistério sobrenatural e sua capacidade incomparável de vender. Ao ler algo dele pode-se ter uma ideia melhor do porquê disso.

O Último Turno é um ótimo exemplo. Apesar de ser o terceiro de uma trilogia (eu só descobri isso quando já havia passado da metade do livro), é uma história independente. O plot gira em torno de um velho policial aposentado que é forçado a voltar à ativa por uma onda de suicídios que parecem ter relação com um antigo caso seu, mal resolvido.

Não posso falar sobre o estilo de King como um todo, mas posso dizer que este livro demonstra uma grande habilidade técnica para gestão da trama. E quando digo técnico, me refiro principalmente ao fator de que é primordial de histórias de mistério saber deixar as pistas para o leitor ir montando o quebra-cabeça, fazendo-o sentir-se recompensado ou surpreso quando cada parte vai se encaixando. É difícil fazer isso de forma eficaz e King, claro, demonstra-se mestre no assunto.

Sua voz narrativa é extremamente limpa, atual e descompromissada. Isso é uma faca de dois gumes: não impressiona, não cria uma estética lá muito expressiva. Mas, em compensação, é acessível a qualquer público, proporciona divertimento leve e, por isso mesmo, vende. E muito. Não é à toa que o cara está entre os dez mais bem pagos do mundo.

Stephen+King+working+at+desk

Stephen King at his office (fonte: http://stephenking.com)

Um pormenor me chamou a atenção: King parece não se importar com a inverossimilhança da história. A parte sobrenatural é tão maluca que não faz o menor sentido no mundo real. É evidente que um escritor como ele faz pesquisas antes de escrever e, portanto, concluo que ele simplesmente pensou “F*d@-se! Eu escrevo o que eu quiser!”. Pois, tirando um ou outro ponto, a fantasia é bastante… Bem… Digamos… Fantasiosa. Praticamente impossível do ponto de vista científico. Mas tudo bem. Ele pode.

Faço um destaque também ao perfil da personagem principal. Como falei acima, não posso falar muito do que ele já escreveu, mas tive a impressão de que aqui ele usou sua própria vetustez para elaborar a psique do protagonista. Ambos são velhos (King chegará em breve aos setenta) e é interessante observar na personagem o reflexo do autor, no quanto um velho deixa de se importar com minúcias sociais e coisas que nós jovens ainda damos tanta importância.

A resolução da trama não é lá essas coisas. Um pouco previsível, sobretudo. Aos moldes hollywoodianos. Todavia, no contexto geral o livro é divertido e curioso. Um indício de que vale a pena recuperar o tempo perdido e voltar para conhecer a obra do autor.

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