26 de janeiro de 2017, 20:34 - Douglas
Parceria, Resenhas    1 comentário

Jantar Secreto

Jantar secreto
Raphael Montes

Há alguns meses, quando saiu o polêmico resultado da escolha do Nobel de literatura, li em algum recôndito lugar da internet, o seguinte aforismo, atribuído a Victor Camejo (@victorcamejo, no twitter): “Absurdo o Bob Dylan vencer o Nobel de Literatura. Ele não escreve livros! Todo mundo sabe que quem faz isso não são músicos, são youtubers”. Comentário assaz hilário e genial, levando em conta a recente safra de livros oriundos desses astros “internéticos”.

Não posso dizer que eu seja contra. Seria hipocrisia. O que todo escritor quer, assim como eu, é ser lido e vender seus livros. Ter reconhecimento e lucro. Youtubers ou não, por mais controversos que sejam, eles conseguiram alcançar esse patamar. Quanto ao conteúdo do que eles escrevem ser bom… Não sei. Eu não li e não tenho planos de. Mas, honestamente, acredito que há espaço e público para todos. Se há tanta oferta é porque há consumo. E o público, no final das contas, é quem manda.

O que me deixa um pouco frustrado é que, enquanto essas pessoas “famosas”, oriundas de um meio não literário, fazem uso de sua imagem para vender livros, alguns autores de real talento não conseguem florescer diante da agressividade deste mercado.

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Felizmente esse não é o caso de Raphael Montes – jovem carioca que tem atingido um renome expressivo no meio literário. Recebemos da Companhia das Letras um exemplar de sua obra mais recente: Jantar Secreto, que confirmou que Raphael Montes não precisa ser youtuber para vender livros. Ele tem talento.

A narrativa conta a história do jovem Dante e seus amigos que, enfrentando as vicissitudes de um início de vida numa cidade grande, acabam engendrando um negócio relativamente sujo para levantar algum dinheiro e que acabam caindo em um vórtice criminoso e complicado de sair. Fui sucinto na sinopse propositalmente para evitar quaisquer spoilers. As surpresas da leitura são o que encantam.

Com uma premissa excelente e criativa, Raphael demonstra uma grande maturidade em relação à escrita. Sua história, típico thriller policial, tem um estilo despojado e consegue ser contemporâneo sem ser rudimentar. Existem referências ao meio social atual e, ao mesmo tempo, referências à literatura clássica. Seja através de coisas simples, tais quais os nomes dos personagens, até referências mais complexas como a equiparação do périplo do protagonista Dante com o de Raskólnikov, do clássico Crime e Castigo. O que mostra que o autor é, antes de tudo, um grande leitor. E isso é fundamental.

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Raphael Montes

A narrativa em primeira pessoa auxilia muito em tornar a trama visceral. Aliás, “visceral” é um termo bastante apropriado para se usar ao comentar a obra. O autor utiliza com êxito os recursos de inversão de expectativa do leitor. Mostrando que Raphael entendeu bem a estrutura das tramas policiais. Além disso, ele utilizou algumas técnicas bastante criativas, tais quais os trechos com narrações epistolares que, ao mesmo tempo, ludibriam o leitor, engendrando mais mistério na história. Minha admiração maior, todavia, ficou a cargo dos trechos de conversa via Whatsapp, mostrados em formato de prints das conversas entre os personagens num grupo do aplicativo. Esse recurso ficou excelente! Penso que ele poderia até ter sido mais utilizado.

E quanto aos personagens, é notório que eles estão enquadrados dentro de suas funções na história, mas Raphael foge dos arquétipos tradicionais (com exceção talvez de um ou outro), o que faz muito bem à trama, potencializando o mistério. Fica claro, desde o tema até a forma de atuação de cada personagem, que o autor opta por não seguir dos estereótipos clássicos e não se apega a regras morais, mostrando personagens que tem tanto um lado bom, quanto um lado mau, demonstrando, mais uma vez, a maturidade do trabalho.

Acontece de haver falhas. Alguns pequenos deslizes de prolixidade e passagens pouco verossímeis que acabam rompendo o ritmo de leitura. Num thriller policial, o ritmo é tudo. E quando o leitor se depara com digressões mal colocadas ou cenas com soluções de conflitos pouco criativas (como um deus ex machina), automaticamente ele emerge da história para pensar naquilo e o entretenimento se dilui. Contudo, não são problemas que condenam o livro. É algo que pelo que se pode passar tranquilamente e que, indubitavelmente, Raphael vai superar nas próximas obras conforme sua experiência se solidifica.

Vale um Capuccino
4 Stars

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1 comentário

  • Voce ja fez um post falando de tudo o que voce tem planejado para 2017? Espero q sim, se nao vai fundo! Desanimar nunca! Eu sei que eh dificil mas vc tbm sabe que tudo eh possivel e vc esta fazendo um excelente trabalho! Continua persistindo! Bjao e abracos! Fique com Deus!

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