Madame Bovary, de Gustave Flaubert

9 de abril de 2015
in Category: Resenhas
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Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Todos os livros que já li sobre teoria literária citam Madame Bovary. O que quer dizer muito sobre uma obra. Lançado em 1856, o livro abalou as estruturas da sociedade francesa do século XIX. E olha que nem há passagens de sadomasoquismo e sexo explícito… Por que então tamanho reboliço?

Bem, logo em seguida de Balzac, o livro é um dos grandes marcos na consolidação do gênero romance. Considerado por alguns, inclusive, como o primeiro romance (nota: não confundam romance e novela)

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Até então, os romances representavam historinhas do cotidiano da população burguesa – algo como neo-granfinos, um povo que tinha dinheiro, mas não tinha a classe da nobreza que, por sua vez, havia sido extinta pela revolução francesa uns poucos anos antes. Balzac e Flaubert entraram na jogada para mudar o tom da coisa, usando o romance como gênero para incutir análises sobre a psique humana.

Madame Bovary, quase em tom de zombaria, critica a sociedade burguesa de forma inexorável, mostrando uma protagonista que, ao mesmo tempo em que despreza a superficialidade da sua própria classe social, também se deleita descaradamente na colcha de pecados capitais por ela oferecida. Coisa que a maioria dos membros desta malta procurava manter nas sombras.

Emma Bovary, a heroína (está mais para anti-heroína) é uma mulher jovem e entediada com a vida conjugal. Quanto mais seu marido se esforça para dar à moça o luxo e o domínio sobre ele, mais ela o despreza e mais se enfada de tédio de não ter de se esforçar para nada. E, na tentativa de conseguir um antídoto para seu enfado, Emma envenena-se com os prazeres do flerte e das fantasias do amor. É uma mulher que não consegue aceitar a simplicidade da felicidade. Que deseja o ardor dos desafios, a adrenalina da sedução e a poesia do sofrimento.

Não conseguia agora convencer-se de que a calma que vivia fosse agora a felicidade que sonhava.

Hoje em dia qualquer Cinquenta Tons de Cinza – bem ou mal – fala sobre isso. Mas naquele tempo era uma afronta à moral. Flaubert foi processado e acusado de incitar as donas de casa (maioria entre o público leitor) com ideias libidinosas. Coisa que só fez o livro ficar ainda mais famoso. Sua forma de se defender por ter criado uma personagem “diabólica” foi a frase que ficou célebre: “Madame Bovary c’est moi!”

O que chama a atenção aos livros teóricos é, além da profunda análise psíquica dos personagens, o fato de Flaubert ter desenvolvido um novo formato de narrativa, desconhecido até então: a narração indireta livre. A técnica consiste em um narrador – apesar de estar em terceira pessoa – descrever os sentimentos dos personagens quase como se os assumisse. Como se, falando do outro, fosse capaz de senti-los e descrever com nitidez e carga emocional intensa.

Ia, afinal, possuir as alegrias do amor, a febre da felicidade de que já desesperara. Entrava em algo de maravilhoso onde tudo era paixão, êxtase, delírio; uma imensidão azulada a envolvia, os píncaros do sentimento cintilavam sob a sua imaginação, e a vida cotidiana aparecia-lhe longínqua, distante, na sombra, entre os intervalos daquelas alturas. Lembrou-se das heroínas dos livros que havia lido e a legião lírica dessas mulheres adúlteras punha-se a cantar em sua lembrança, com vozes de irmãs que a encantavam. Ela mesma se tornara como uma parte verdadeira 57 de tais fantasias e concretizava o longo devaneio de sua mocidade, imaginando-se um daqueles tipos amorosos que ela tanto invejara antes. Além disso, Emma experimentava uma sensação de vingança. Pois não sofrerá já bastante? Triunfava, todavia, agora, e o amor, por tanto tempo reprimido, explodia todo com radiosa efervescência. Saboreava-o sem remorsos, sem inquietação, sem desassossego. (Gustave Flaubert, Madame Bovary, p. 124-5.)

Esta técnica foi evoluída e adotada por muitos romancistas, inclusive a nobre Clarice Lispector.

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Obj : 2.8/80, # 16, t 1/60 secGraphit : Gén : 8.2 G : 7.2 D : 7.2 (foto: www.bovary.fr/)

Como todo romance antigo, ao estilo da época, o livro exagera em algumas descrições mas que somam, sem dúvida, para ambientar o leitor. A mim, o que encantou, é o lirismo das figuras de linguagem de Flaubert, tão belos que quase tecem poemas:

(…) naquela multidão, todas as bocas estavam abertas como que para beber as palavras (…)

O autor levou cinco anos para escrever a obra. Era citado como um homem compulsivo por perfeição em seu texto. E, verdade ou não, entrou para a história com seu trabalho. E pensar que seu primeiro livro, As Tentações de Santo Antão, ficou engavetado durante anos, porque seus amigos o aconselharam, após lê-lo, a largar a literatura, pois achavam que não tinha talento…

Vale um Café Vienense
5 out of 5 stars

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2 comments on “Madame Bovary, de Gustave Flaubert”

  1. Olá, gostei muito da sua resenha , vc fez uma boa analogia aos romances atuais e explicou pq esse romance foi tão chocante para época. Até hoje as atitudes de Emma são criticadas, sim ela era uma tola sonhadora, mas levando em consideração o contexto histórico era o máximo que podia fazer, ela foi atras de sua satisfação e de seu prazer. O marido também tem “mea culpa”.
    Abç,
    Gisele
    http://conchegodasletras.blogspot.com.br/2015/04/filmes-series-sherlock-holmes-atraves.html

  2. jandira disse:

    Flaubert, sim, sabida de mulher. Romance grandioso e o tema, imortal!

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