10 de outubro de 2014, 08:21 - Douglas
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Gêneros Literários: A Novela

No último final de semana assisti novamente ao filme Troia, de 2004, como passatempo, apenas para relaxar, já que é o tipo de filme que não exige muito esforço mental. Gosto de épicos. Fico imaginando o quanto daquilo seria verdade, desde o figurino, até os diálogos típicos de teatro grego. Eis que numa passagem, um velho convence Aquiles a lutar, apelando para sua vaidade, sugerindo-lhe quantas seriam as canções que fariam em seu nome, enaltecendo-lhe as vitórias, reverberando sua fama eras a frente.

troia - filmes

Não é a primeira vez que vejo citação semelhante: no livro O Senhor dos Anéis, o hobbit Sam comenta para Frodo que, mesmo que suas jornadas terminem em morte, teriam, como consolo, as canções que seriam feitas sobre eles e suas aventuras.

Era comum, sobretudo na Idade Média, que as canções de gesta povoassem as ruas, compostas para enaltecer grandes feitos e histórias de cavaleiros e nações, relatando folcloricamente as batalhas históricas, principalmente na própria França medieval, famosa por batalhas e aventuras de cavalaria.

Como quem conta um conto inventa um ponto, a memória passou a ser falha para guardar as canções, o que levou os músicos a escrevê-las e guardá-las. Não demoraria muito para que tais documentos sofressem certa mutação e passassem a ser encarados como material de leitura, dando origem ao o que conhecemos hoje por novela.

A palavra “novela” remonta ao italiano “novella”. Possivelmente provinda do latim “novelle”, de “novellus”, diminutivo de “novus”, com sentido de “jovem”, “novo”, “recente”, “novidade”. Logo, podemos associar que em seus primórdios, teria sido uma espécie de crônica sobre fatos históricos recentes, até que, tendendo à ficção, tomou corpo de livro.

Embora esta origem seja apenas uma suposição histórica, é fato que as primeiras obras do gênero tratavam exclusivamente de histórias de cavalaria, cujo foco era principalmente entreter. O público cativo que dava ouvidos às canções de gesta – do cotidiano, sem muitas pretensões intelectuais – foi o mesmo que popularizou os primeiros escritos neste formato e, portanto, exigiam pouca retórica e muita diversão. Logo, a novela se afasta da realidade, buscando o fantástico, o surpreendente.

Diferente do conto, é caracterizada por não ter apenas um ponto de ação, mas por uma série encadeada deles. Lembrando que a ação é o conflito, o drama, o cume do movimento de uma história. E o objetivo da novela é manter esta força motivadora ativa, para instigar o leitor a virar a página e continuar lendo.

Não que se deseje o contrário com o romance e o conto. Trate-se apenas do fato de que este é o conceito primordial deste gênero. Portanto, todos os esforços são aplicados para este fim. A subjetividade que o conto almeja e a profundidade psíquica encerrada no romance são menos presentes aqui. Ao ponto de, muitas vezes, adiantar certas conclusões para que a viagem do leitor seja o mais lúdica e lúcida possível.

Um exemplo da aplicação disso seria a pré-determinação de sentimentos do personagem antes de ele demonstrar. Dizer “fulano sentiu-se assim ou assado” funcionaria melhor do que demostrar com gestos, exatamente por não deixar dúvidas, mantendo o ritmo de entretenimento. Mais ou menos invertendo o conceito do “show, don’t tell” que comentei em outros posts. Note, contudo, que o autor precisa ponderar as medidas do que deve mostrar descaradamente e do que deve deixar a cargo da conclusão do leitor. Eu sempre parto do pressuposto que meus leitores são inteligentes, então lapido meus textos de forma menos óbvia para não gastar palavras à toa.

graal

A linha narrativa da novela tende a ser uniforme, ligando cada ponto de conflito como consequência ou segmento do anterior. Nos primeiros exemplares do gênero, como A Demanda do Santo Graal esta estrutura era tão evidente que a cada ciclo de ação o personagem morria, dando lugar a um outro que reiniciava o vórtice da aventura.

Contrastando com o conto, há um possibilidade maior de desenvolvimento de personagens tanto no quesito profundidade psicológica quanto no que diz respeito à quantidade de figurantes e coadjuvantes. Porém, serão de qualquer forma rasos, pois para que seja possível fomentar o dinamismo da trama e manter a motricidade inerente ao gênero, evitam-se as digressões e os fluxos de consciência, que são os recursos utilizáveis para se demonstrar as inúmeras faces psíquicas de um personagem.

Além disso, essa construção exigiria um tempo de narrativa que a novela, por ser novela, não dispõe. Por isso os personagens são facilmente identificados por arquétipos com papeis fáceis de rotular (o herói, o mentor, o vilão, o parceiro, a donzela em perigo, etc.).

Seu tempo narrativo é linear. A novela aproxima o leitor do seu presente. Não à toa o tempo verbal mais comum é o pretérito perfeito (“foi”, “andou”, “saltou”, “correu”, etc), causando a impressão de um ocorrido recente. Exames a um passado remoto nada mais são do que flashbacks sem efeito dramático direto e/ou com o intuito apenas de dar embasamento contextual à história.

Assim é a função também do cenário e dos figurantes, moldados sem grande foco dramático, servindo apenas como suporte. Se usarmos como exemplo novamente O Hobbit de Tolkien, pouca diferença faria se o protagonista, em vez de morar num condado, morasse numa fazenda, numa cidade grande ou em outro planeta. Apesar da grande criatividade do autor na criação de seu mundo imaginário, a aventura que o pequeno hobbit viveria não estava ligada diretamente aos cenários por onde viria passar.

Percebe-se por isso que este é o gênero mais literário. Ou seja, que encerra mais recursos artísticos, procurando afastar-se da realidade, desprezando sua profundeza, para abarcar o leitor em um caminho de sentimentos imediatistas, visando mais a diversão do que qualquer outro tipo de reflexão.

O que não quer dizer menos valor por isso, considerando grandes obras do gênero como D. Quixote, Guerra e Paz e, mais recentemente, Guerra dos Tronos.

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