A caverna, de José Saramago

1 de setembro de 2019
in Category: Resenhas
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A caverna, de José Saramago

A caverna, de José Saramago

A caverna
José Saramago

Reler um livro é sempre uma redescoberta. A cada releitura percebemos o texto de forma diversa. Nuances que, nas(s) primneira(s) leitura(s) não saltaram aos olhos, referências não percebidas. Aquela frase que diz que nunca entramos duas vezes no mesmo rio tem tudo a ver com releituras. Somos pessoas diferentes a cada leitura. Amadurecemos, passamos a enxergar os personagens e somos afetados pela narrativa de outra forma.

Leitor que é leitor, aquele de verdade, leitor raiz, gosta de reler seus livros prediletos. Só não o faz mais vezes porque a quantidade de livros não lidos é sempre esmagadora, gerando uma certa culpa por retornar a um universo literário familiar em detrimento de tantos outros ainda aguardando serem descobertos. Mas há livros e autores que merecem ser revisitados sempre que possível. A caverna, entre outros livros de Saramago, é um desses.

A caverna é uma história de gente simples: um oleiro, um guarda, duas mulheres e um cão muito humano. Esses personagens circulam pelo Centro, um gigantesco monumento do consumo onde os moradores usam crachá, são vigiados por câmeras de vídeo e não podem abrir as janelas de casa.
É no Centro que trabalha o guarda Marçal. Era para o Centro que seu sogro, o oleiro Cipriano, vendia a louça de barro que fabricava artesanalmente na aldeota em que vive – agora, os clientes do Centro preferem pratos e jarros de plástico. Sem outro ofício na vida, Cipriano perde a razão de viver. E a convite do genro, muda-se para o Centro, essa verdadeira gruta onde milhares de pessoas se divertem, comem e trabalham sem verem a luz do sol e da lua.”
(fonte: companhiadasletras.com.br)

É a partir dessa trama simples, sobre gente simples, vivendo sua vida simples – mas nunca simplória – que Saramago faz o que faz de melhor: entrega ao leitor uma narrativa crítica, irônica, mas repleta de poesia. Em cujas entrelinhas, deixa entrever um sem fim de interpretações para a mesma história. E nisso reside a genialidade do autor – não há apenas uma leitura possível da obra, uma interpretação plausível, o que permite que cada leitor se identifique com o texto à sua maneira.

Como sempre, o autor utiliza frases e períodos longos, empregando a pontuação de forma não convencional – algo que, a princípio, causa uma certa estranheza aos principiantes na obra de Saramago. Os diálogos são inseridos nos próprios parágrafos, sem travessões para indicá-los. Ao deixar narração e diálogos praticamente indistinguíveis ao longo do texto, tem-se a impressão de um fluxo de consciência ininterrupto que cativa e captura o leitor assim que este se habitua ao estilo do autor.

Ler e decifrar Saramago é similar ao que Drummond fala a respeito da poesia:

“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?”
(“Procura da poesia” in A rosa do povo)

A chave para entender o estilo de Saramago é, pura e simplesmente, ler Saramago. Contemplar suas palavras e apreender a existência de suas faces ocultas. E, à medida que a leitura avança, daquilo que inicialmente parece confuso desabrocha uma narrativa envolvente, do mesmo modo que do barro disforme emergem esquimós, enfermeiras, palhaços. E entre diálogos e narração misturados, surgem os pensamentos dos personagens. Descritos com uma verossimilhança que impressiona. Interessante reparar a metalinguagem e a auto-referência quando o narrador diz que não vale a pena descrever o que alguém pensou porque essa pessoa já pensou isso outras vezes e não é nenhuma novidade.

Creio que aspirantes a escritores se sentem um tanto invejosos e intimidados pela qualidade do texto de Saramago. É o tipo de autor que quase nos faz desistir de querer escrever, pensando “PQP, nunca conseguirei escrever com 10% dessa habilidade!”. Vale reparar na capacidade que ele tem de transformar algo mundano como a aparição de um cachorro e a possível escolha de um nome pra ele em um texto tão lírico e poético. E, algumas linhas adiante, quando Cipriano finalmente vê o cão por inteiro, a descrição é recursiva, extensa, mas longe de ser monótona. Da mesma forma, uma conversa sobre um cântaro adquire um teor filosófico inesperado, mas não menos cativante.

“Supondo que ficará com o cão, que nome lhe vai pôr, perguntou Marta, É cedo para pensar nisso, Se ele ainda cá estiver amanhã, deveria ser esse nome a primeira palavra que ouvisse da sua boca, Não lhe chamarei Constante, foi o nome de um cão que não voltará à sua dona e que não a encontraria se voltasse, talvez a este chama Perdido, o nome assenta-lhe bem, Há outro que ainda lha assentaria melhor, Qual, Achado, Achado não é nome de cão, nem Perdido o seria, Sim, parece-me uma ideia, estava perdido e foi achado, esse será o nome,”
(p.53)

“Ah, bons dias, senhor Cipriano, disse ela, Venho cumprir o prometido, trazer-lhe o seu cântaro, Muito obrigada, mas realmente não devia estar a incomodar-se, depois do que conversámos lá no cemitério pensei que não há grande diferença entre as coisas e as pessoas, têm a sua vida, duram um tempo, e em pouco acabam, como tudo no mundo, Ainda assim, se um cântaro pode substituir outro cântaro, sem termos de pensar no caso mais do que para deitar fora os cacos do velho e encher de água o novo, o mesmo não acontece com as pessoas, é como se no nascimento de cada uma se partisse o molde de que saiu, por isso é que as pessoas não se repetem, As pessoas não saem de dentro de moldes, mas acho que percebo o que quer dizer, Foi conversa de oleiro, não ligue importância, aqui o tem, e oxalá não caia a asa a este tão cedo”
(p.62)

Quem já leu Moby Dick sabe o quão extensas são as descrições que o autor, Herman Melville, faz sobre todo o processo da caça às baleias – desde a descrição dos arpões, dos botes, até o uso dado a cada parte do cetáceo capturado. Lendo A caverna, algumas partes me remeteram a Moby Dick, ao me deparar com longos trechos descritivos do processo de manufatura das cerâmicas. Porém, enquanto o texto de Melville é maçante e enfadonho – sim, dá vontade de pular as páginas -, Saramago consegue ser poético até descrevendo os diferentes tipos de barro, a produção dos moldes, as formas de cozimento, as técnicas de pintura das peças.

Apesar de muitos falarem que a obra é uma “reescrita” da alegoria da caverna de Platão, eu, a resenhista, discordo. No meu entender, Saramago apenas faz referência à alegoria no final do livro: seja indiretamente, discorrendo sobre a existência, o cotidiano dos que vivem no Centro; seja diretamente, com a caverna que é descoberta nas escavações e os “vultos” que aparecem ali. Sem dúvida que há paralelos entre a caverna de Platão e a de Saramago. A crítica à existência mundana e alienada dos habitantes do Centro, similar aos da caverna, está presente; assim como à desconfiança daqueles que duvidam da existência e/ou relevância do mundo do “lado de fora”.

“Marta disse: Estas pessoas não vêem a luz do dia quando estão em casa. As que moram nos apartamentos voltados para o interior do Centro também não… praticamente enclausurados… sem a luz do sol, a respirar ar enlatado todo dia.”
(p.278)

Há inúmeras interpretações para a vida no Centro. Na época em que o livro foi escrito, em 2000, as redes sociais não eram parte intrínseca do dia-dia das pessoas. Mas hoje, a vida no Centro pode ser comparada ao que as pessoas exibem nas redes sociais, sombras de si mesmas. Figuras fabricadas que são tomadas como realidade. Uma existência simulada, não necessariamente falsa ou mentirosa, mas parcialmente verdadeira, assim como quando Marçal descreve para Cipriano como é bom viver no Centro.

Mesmo com toda a crítica e ironia características das obras de Saramago, neste livro ele pega mais leve na censura à Igreja e à religião. O que não quer dizer que não existam referências. A feitura dos bonecos tem um quê de brincar de deus, de criar pessoas a partir do barro. E não passa despercebido o fato de os moldes irem perdendo a definição e o destino dos bonecos com falhas.

Como sempre, Saramago constroi personagens cuja verossimilhança leva o leitor a se identificar indubitavelmente. Até mesmo Marçal que, a princípio, parece um personagem chato, tanto no sentido de enfadonho quanto no sentido de plano, raso, unidimensional, revela-se um “sem graça” com nuances. Descreve-o Cipriano:

“(…) este seu genro é um moço simpático, sem dúvida, mas é nervoso, da raça dos desassosegados de nascença, sempre inquieto com a passagem do tempo, mesmo se o tem de sobra, caso em que nunca parece saber o que lhe há-de pôr dentro, dentro do tempo, entenda-se,”
(p.13)

Suas conversas com o sogro têm sempre várias camadas, várias entrelinhas, apesar de ele não ser muito bom com as palavras. Isaura, que pode ser considerada uma personagem secundária, é muito bem construída e agrada principalmente por ser uma mulher com quereres e anseios bem definidos e pelos quais ela luta sem acanhamento. E lógico que não podemos esquecer o cão Achado, tão relevante à história. Não há como não pensar em Baleia – em Vidas Secas, de Graciliano Ramos – já que, assim como ela, Achado torna-se um membro da família e tem atitudes e sentimentos quase humanos.

É incontestável a universalidade das ideias expressas no seu texto. Logo no início d’A caverna, o narrador fala sobre o jovem não saber o que pode, e o velho saber mas não poder:

“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.”
(p.14)

Conceito este que pode ser visto/lido/ouvido em diversas versões, mas no fundo com o mesmo sentido. Como o que diz Alice Ruiz sobre o judô e sobre o amor:

Há um sem fim de leituras e interpretações para esta obra – como todas as de Saramago -, o que confirma inegavelmente o adjetivo de “gênio” dado ao autor. Sua sensibilidade, sua percepção acurada da realidade aproximam e mergulham o leitor no universo de seus livros.

Colaboração: lutaquenemmina
 

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Para saber mais:

  1. Alegoria da caverna
  2. Alegoria da caverna em quadrinhos

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