16 de janeiro de 2017, 20:18 - Douglas
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Como se estivéssemos num palimpsesto de putas

Como se estivéssemos num palimpsesto de putas
Elvira Vigna

Esta é uma análise difícil. Um romance, diferentemente das novelas (sabe a diferença? Dê uma olhadinha aqui: Gêneros Literários: a Novela) é uma obra transcendental, cuja subjetividade estética pode estar além de uma única e definitiva análise. Ou seja, em grande parte dos casos, vale mais o que o autor colocou nas entrelinhas do que explicitamente nas linhas.

Mas este não é o único aspecto que torna a crítica desta obra complicada. Outra das idiossincrasias do romance é ele falar sobre o mundo real. Pessoas, sentimentos, contextos reais. Não quer dizer que não seja ficção, mas é uma ficção que reflete, representa e/ou descreve aquilo que é o mundo verdadeiro. E a magia do romance está justamente no prisma pelo qual este mundo real é visto. Seja um personagem esquizofrênico, como Goliadkin, do romance O Duplo de Dostoievski, seja um simplório alegre como Brás Cubas de Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, as interpretações serão sempre distorcidas, de acordo com a psique do personagem. Portanto, noções de ordem e sequência narrativa, tempo, espaço, etc. são sempre subjetivas.

palimpsesto

Por sua vez, Elvira Vigna analisa múltiplos universos neste seu romance. Começa com um pequeno engodo ao leitor, mostrando um narrador que não parece inserido na história e que, mais adiante, revela-se como personagem e que está moldando o ponto de vista sobre os demais personagens do romance. Através da história desta personagem é descrita a vida de João, homem de meia idade que tem o vício de frequentar prostíbulos.

O fluxo narrativo parece, algumas vezes, ter uma ordem confusa. Mas isso é outra estratégia de Elvira. O leitor demora um pouco a compreender que, em verdade, ela está representando a linha de raciocínio da personagem narradora que não é necessariamente linear. Afinal, no mundo real, nossos pensamentos não são lineares. Temos um emaranhado de fluxos de consciência e vozes nos falando internamente e apenas quando expomos ao mundo parecem (quase sempre) estar numa sequência lógica. Independentemente disto, não ficam pontas soltas. Cedo ou tarde, a autora completa todos os desvios.

A narradora, cujo nome nunca é citado, conta ao leitor suas conversas com João, a quem conheceu fortuitamente e com que desenvolveu uma espécie de amizade. João conta-lhe sobre as aventuras nos bordeis e a narradora “reconta” ao leitor, fazendo suas próprias interpretações. E faz isso indo ao passado, ao futuro e criando várias digressões no decorrer do texto, mostrando, como comentei acima, a estrutura de raciocínio como é no mundo real.

É assustador o quanto Elvira conhece do mundo masculino. E mais assustador é identificar o quanto nós homens (em sua maioria) somos pequenos e infantis em relação às mulheres. Com uma precisão cirúrgica, ela personifica, de maneira caricata, mas verdadeira, no personagem de João as características fugazes dos homens. Por vezes a leitura chega a ser irritante por demonstrar o quanto nós homens podemos ser superficiais e ridículos. A verdade dói.

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Elvira Vigna (foto: Renato Parada / Divulgação)

Não que ela coloque as mulheres num pedestal. A personagem demonstra também suas dificuldades existenciais e das demais mulheres na história. Mas é evidente que, pelo livro, existe uma discrepância em relação à densidade de raciocínio entre homens e mulheres.

É preciso lembrar, entretanto, que a narradora é uma mulher. Então, Elvira, como autora, não necessariamente está compondo uma obra feminista ou puxando a sardinha para seu lado. Pelo contrário. Em seu absoluto talento, ela apenas dá à personagem a coerência de um ponto de vista feminino. Pois, pelos olhos delas, somos todos moleques inconsequentes (e em geral somos mesmo).

Apesar da aparente complexidade, o estilo da narração é leve. A narradora situa o leitor constantemente, direta ou indiretamente, demonstrando os marcos de tempo e lugar. Estratégia assertiva da autora, criando pequenas âncoras para que possamos delinear a coerência da história.

Ainda que curta, é uma obra densa que surpreende pela estética com a qual foi construída. Elvira Vigna, ganhora de um Prêmio Jabuti, demonstrou seu merecimento com esta obra.

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