O que há em Dom Quixote?

3 de maio de 2016
in Category: Resenhas
0 2120 0
O que há em Dom Quixote?

O que há em Dom Quixote?

Em todas as listas top 100, top 50 ou mesmo top 10 de melhores livros de todos os tempos, sempre encontramos Dom Quixote. “Por quê?”, eu me perguntava assiduamente. Para responder essa pergunta, pensei: bastava lê-lo. E assim o fiz, confirmando, de fato, que se trata de uma obra magnífica e atemporal.

Entretanto, antes de falar das características literárias da narrativa, é preciso analisar o contexto em que ela foi escrita. Em 1605, quando lançada, a Europa renovava sua cultura. Há pouco tempo terminara a Idade das Trevas, e a Renascesça trouxera o espírito lírico para a população. Começavam os primeiros passos da revolução industrial e a queda da classe da nobreza. Em termos literários, uma forma em particular fazia muito sucesso entre os leitores: a novela de cavalaria.

Esta é uma nova edição da editora Nova Aguilar, comentada por autores clássicos como Dostoievski.

Esta é uma nova edição da editora Nova Aguilar, comentada por autores clássicos como Dostoievski.

Estes livros tinham um formato específico para mero entretenimento. Contavam histórias de nobres cavaleiros que percorriam o mundo em busca de aventuras, lutando contra monstros e reis malvados, resgatando lindas princesas. O sucesso era tremendo.

O único problema disso é que a era dos nobres já tinha começado a declinar e a revolução industrial mostrava a que veio. Desse modo, as histórias de cavalaria estavam mais para uma caricatura do que haviam sido as fantasias medievais. Cavaleiros, princesas e guerras românticas já não era mais parte do cotidiano das pessoas. Pelo contrário: o reinado da Espanha andava em crise com corrupções e guerras mal sucedidas.

Assim, a obra de Cervantes foi – direta ou indiretamente – uma crítica a esta fantasia das novelas de cavalaria. Nela, um fidalgo enlouquece de tanto ler tais obras e resolve, armado de uma velha espada, um pangaré, uma bacia de ferro como elmo, sair pelo mundo em busca de grandes aventuras. E, como se não bastasse, convence um vizinho tolo a segui-lo como escudeiro, prometendo-lhe grandes recompensas e tesouros.

A narrativa, além disso, não apenas satirizava os romances de cavalaria, mas também trazia uma série de críticas veladas à estrutura política e religiosa da época. Coisa que Cervantes teria justificado – e salvado sua pele – com a loucura do personagem. Ciente dos problemas que poderia comprar, Cervantes durante um tempo negou sua autoria, colocando-se como mero organizador.

Gustave Dore - Dom QuixoteDo ponto de vista estrutural, Dom Quixote tem a exata estrutura da novela: segue a jornada do herói, onde os núcleos de ação são encadeados numa linha narrativa única. É recheada de humor, pois o velho maluco se mete em enrascadas, mas nunca sem perder a pompa de um cavaleiro, enaltecendo o ridículo anacronismo de seu comportamento.

Sancho Pança, por sua vez, atua como uma consciência, a razão que o fidalgo perdeu. Porém tola, pois acaba deixando-se levar por ser simplório e por ambicionar os tesouros prometidos.

Os simbolismos da obra perduraram e influenciaram uma infinidades de outras obras até hoje. Alguns estudiosos afirmam que o conto O Alienista, de Machado de Assis é amplamente inspirado por Dom Quixote. E, realmente, é difícil ler um sem lembrar do outro. Inclusive o tom sarcástico de Cervantes é bem semelhante ao de Machado – ou vice-versa.

BirdmanEnquanto escrevia este post, lembrei-me do filme Birdman, do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. Sem muitas pretensões de crítico de cinema, eu adorei o filme e me dei conta de que, salvo algumas diferenças de contexto, existe um paralelo bem nítido entre o simbolismo do filme e o de Dom Quixote. Ambos são personagens perturbados pela idade e pelas suas fantasias de ser herói. Ambos satirizam os heróis comerciais de suas épocas. Ambos têm escudeiros que são as vozes da razão e ambos teê histórias paralelas de romances e intrigas.

Independente de eu estar certo quanto a isso, é ponto pacífico que Cervantes não apenas escreveu uma história clássica, que acabou por reverberar em todo o mundo da literatura e em todos os tempos vindouros ao seu lançamento, como também muito divertida e engraçada que merece, sem sombra de dúvida, estar sempre entre os top 10 melhores livros de todos os tempos.

Vale um Café Vienense
5 out of 5 stars


Send to Kindle
, , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *