7 de maio de 2016, 10:56 - Cristine
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10 dicas e truques para criar personagens inesquecíveis

»» versão do artigo “10 Tips And Tricks For Creating Memorable Characters”, escrito por Charlie Jane Anders, publicado em 05/08/2014 no io9 ««

Ficção científica e fantasia são feitos de ideias legais e mundos fascinantes – mas essas coisas somente são tão boas quanto as pessoas que vivem ao redor e dentro delas. Como você cria personagens fictícios atraentes? É um desafio enorme. Mas aqui estão algumas dicas que podem tornar isso mais fácil.

Não existe bala de prata ou fórmula mágica para criar personagens que vivem e respiram dentro da sua cabeça (e espero que na das outras pessoas, também). Se existisse, todo mundo estaria usando e isso não seria um desadelo tão grande. EU me debato com isso o tempo todo – minha estória chega ao oitavo ou nono rascunho antes de eu perceber que um personagem importantes ainda é basicamente um pedaço de papel, carregado pelo vento através da história. E depois de alguns anos lutando contra esse problema, cheguei a algumas tátias que me ajudam a imaginar o personagem como um indivíduo único e real, em vez de apenas um papel na trama ou história.

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(fonte: http://powerlisting.wikia.com/)

Nota: este artigo foi adaptado de uma mini-palestra que dei no Clarion West há algumas semanas. Agradeço a todos que fizeram perguntas e deram feedback. (E este é um bom lugar para linkar o Clarion West, que é um programa de escrita que todos vocês devem apoiar e se inscrever. Tive uma experiência incrível lá, e me senti privilegiada ao me encontrar com a próxima geração de incríveis escritores de sci-fi.)

Então, aqui estão algumas idéias e dicas que podem fazer seus personagens ganharem vida mais facilmente:

1. Personagem é ação

Essa é a máxima que eu basicamente tento seguir nos últimos anos, e eu meio que a quero em formato de banner para poder pendurar sobre o meu computador. Seus personagens poder ser espirituosos e desfiar filosofias interessantes, e ter nomes interessantes e ter um incrível gosto pra se vestir – mas no fim, eles são o que fazem. Nós julgamos as pessoas por suas ações (lembrando que o discurso pode ser uma ação também). Então, ao pegar personagens para preencher seu mundo, não pense em tipos de pessoas nem em ideias legais – tente pensar em pessoas que fazem coisas. E se seus personagens estão apenas sentados lançando frases de efeito página após página, mas não se levantam e fazem alguma coisa, então provavelmente não são personagens interessantes afinal. (E, sim, mesmo que você esteja escrevendo uma novela que se passa em ambiente fechado, em que o diálogo é o evento principal, essa conversa deve envolver pessoas que interajam de forma a fazer a história avançar.)

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cena de Moon (roteiro e direção de Sam Rockwell)

2. Ações surpreendentes

E, na sequência, os personagens mais convincentes muitas vezes são aqueles que fazem algo inesperado. Quando você cria o personagem, é preciso um “gancho” para deixar você interessado nele – pois muito da criação de personagem na verdade está em ficar curioso sobre ele/ela. Você, o escritor, tem de querer saber mais sobre essa pessoa, então você pode fazer seu leitor querer saber mais também. Um jeito de fazer isso é imaginar um personagem fazendo algo totalmente bruto e fora das convenções, algo que ninguém jamais faria. E tentar imaginar o que poderia motivar alguém a se comportar dessa forma e que tipo de pessoa faz esse tipo de coisa.

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cena do filme The martian (roteiro de Dres Goddard, direção de Ridley Scott), baseado no livro de Andy Weir

3. Contradições estranhas

De novo, muito da invenção de pessoas e de fazê-los ter vida própria está em ficar curioso sobre eles. E uma coisa que pode fazer você pensar sobre alguém são suas contradições pessoais – na vida real, assim como na ficção. Quando você encontra um vegetariano que usa couro, você quer saber mais sobre o motivo de se recusar a comer carne, mas usar pele de animais. Ou encontrar um budista sádico, isso é automaticamente fascinante. Esses são exemplos extremos, mas todo mundo tem contradições entre suas convicções e suas ações, ou entre duas ideias diferentes que defendam.

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cena do filme “I, robot” (roteiro de Jeff Vintar, direção de Alex Proyas), baseado no livro de Isaac Asimov

4. Um detalhe pode estar no seu caminho

… se for um detalhe bem marcante. Especialmente para um personagem secundário, um único detalhe expressivo (uma jóia que essa pessoa use ou um hábito estranho que tenha) pode marcá-los na sua mente. Mas, mesmo para seu protagonista, um único detalhe interessante – sobre ele ou sua aparência – ou um jargão, pode torná-lo muito mais vívido para você. Em muitos aspectos, é como tentar se lembrar de alguém que você conheceu anos atrás – qualquer coisa que o ajude a lembrar é últil.

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Sherlock Holmes, personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle.
(© Hartswood Films – photo: Robert Viglasky)

5. Mas salve os detalhes extras para a reescrita

Quando eu estava começando como escritora de ficção, fui a uma oficina em que entregaram “folhas de criação de personagens” pegas de um lugar qualquer. Não eram fichas de personagem tipo D&D – não havia espaço para tendência, destreza ou o que quer que fosse – mas em vez disso apenas um acúmulo de características que esperamos que formem um personagem tridimensional – cor favorito, bicho de estimação, música favorita, etc. A única vez que tentei preencher uma dessas folhas para um personagem, perdi total interesse por ele antes de chegar à metade. Era muito confuso e me deixou empacada tentando inventar coisas que não eram do meu interesse. Por outro lado, um truque realmente útil que descobri é, por volta do nono ou décimo rascunho, voltar e semear coisas tipo o gosto musical do personagem, hábitos alimentares, preferências na decoração – uma vez que o personagem já está vivo e respirando, e que a história já está escrita e trabalhada, muitas vezes incluir coisas assim adiciona uma camada extra de realidade para a história toda.

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James Bond e seu Dry Martini “Shaken, not stirred” – personagem criado por Ian Fleming.

6. Um mundo atraente e alguém lutando por ele

Então você construiu um universos espetacular e criou uma configuração de um local com vida – e agora, a tentação é preenchê-lo com pessoas que se encaixem perfeitamente nele. Afinal, seu mundo é tão fascinante, seus personagens devem ser uma extensão dele, certo? Talvez não. Muitas vezes, o personagem mais interessante é aquele que se sobressai em seu mundo, ou que se diferencie dele. Em um mundo de pastores de nuvens, escrever sobre alguém que é alérgico a vapor. Seu protagonista não precisa ser um pária social, ou alguém que desafia as normas e valores da sociedade – apesar de não faz mal que seja – mas escrever sobre alguém que tem uma relação diferenciada com seu mundo é uma boa maneira de criar pessoas fictícias com alguma vida nelas.

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cena do filme The neverending story (roteiro e direção de Wolfgang Petersen), baseado no livro de Michael Ende

7. Yoda estava errado sobre a raiva

Capturar emoção numa página pode ser muito difícil. Há um elemento de ação na escrita – você tem de “ouvir” seus personagens na sua cabeça, mas você também precisa “retratar” o que estão pensando e sentindo. Às vezes, é realmente útil representar a cena (na privacidade da sua casa) até que ela se torne natural e verdadeira. Mas a maioria dos escritores não são grandes atores, e acessar emoções sob demanda pode ser uma tarefa quase impossível. É por isso que a raiva é uma dádiva de deus – todo mundo pode ficar com raiva e todo mundo tem gatilhos que inspiram raiva facilmente. E a raiva é uma emoção poderosa que pode motivas seus personagens a fazer um monte de coisas. Mas também, a raiva pode se transformar em outras emoções com muita facilidade. Yoda estava errado: A raiva conduz ao protecionismo. A raiva conduz à alegria. A raiva conduz ao perdão. A raiva pode facilmente se transformar em humor, na verdade. Se você puder entrar em contato com sua raiva, pode encontrar maneiras de transformá-la em outras emoções fortes.

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cena de The Empire strikes back (roteiro de Lawrence Kasdan, direção de Irvin Kershner)

8. A aspiração do seu personagem pode ser estranha

Como regra geral, um personagem interessante é alguém que quer alguma coisa – pessoas que não querem nada tendem a ser apáticas e é muito mais difícil fazer o público se interessar por um personagem apático. (É totalmente factível, mas ao menos esteja totalmente consciente de que está fazendo isso, e tente fazer funcionar.) Mas o que seu personagem quer não precisa ser o foco da história – se sua história é sobre alguém sendo atacado por cogumelos carnívoros gigantes, seu personagem principal pode querer algo mais do que apenas evitar ser comido. Talvez ele esteja tentando chegar a seu casamento a tempo e os cogumelos apenas estão impedindo que ele faça isso. Esse é um exemplo grosseiro, mas se sua história é sobre realizar uma tarefa em particular, considere dar a seu protagonista algo além dessa tarefa. Isso fará com que ele/ela se destaque e pareça menos com um dispositivo que move a trama.

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Tintim – A ilha mistetiosa, de Hergé

9. Escreva uma história de origem, mesmo que você não a use

Não apenas de onde seu personagem vem ou o que ele costumava ser – mas uma história real. Não precisa ter mais de um parágrafo ou dois. Escreva sobre como seu protagonista saiu da escola, dez anos antes da sua história começar. Ou conte como seu protagonista percebeu pela primeira vez que era diferente. Às vezes, escrever uma história breve, sucinta sobre como o personagem aprendeu alguma coisa ou lidou com algum assunto – algo que o transformou na pessoa que é no início de sua história – pode lhe garantir um poderoso recurso guardado na manga. Eu quase nunca incluo “histórias de origem” na história finalizada, mas elas me ajudam a ver quem é essa pessoa agora e como ela chegou até aqui.

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cena de Edge of tomorrow (roteiro de Christopher McQuarrie, direção de Doug Liman), baseado na HQ de Hiroshi Sakurazaka

10. Trabalhe no sentido contrário do fluxo do enredo ou história

Esta dica tem ligação com a número 8. Se o seu personagem vai do ponto A para B e para C, dando os passos corretos necessários para seguir o enredo que você engendrou, então provavelmente ele não está realmente tendo vida própria. Seu personagem deve se desviar do caminho – e preste atenção aos pontos em que uma pessoa real não apenas se colocaria em perigo ou tomaria uma decisão que move a trama para frente. Muitas vezes, quando está indo tudo muito bem, não é só porque você não introduziu complicações suficientes, também é porque seus personagens não estão tomando suas próprias decisões. Pessoas reais têm seus próprios princípios e escrúpulos e não vão apenas onde você precisa que eles estejam. (E, em seguida, quando seus personagens estragaram completamente o caminho que você esquematizou para eles, é o momento em que seu mundo entra em ação e simplesmente os impede de fazer o que querem.)

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cena de Finding Nemo (roteiro de Andrew Stanton, direção de Lee Unkrich)


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