O Senhor das Moscas

Published on: 30 de julho de 2013

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Nada se cria: tudo se copia. Soa medíocre, mas não (necessariamente) é. Inúmeras obras de grande sucesso são baseadas em outras obras de grande sucesso. É muito difícil ser originalmente original. Impossível eu diria. Um exemplo: O Rei Leão – em minha humilde opinião, a melhor obra da Disney de todos os tempos – foi baseado em Hamlet de Shakespeare. E isso é declarado. Os roteiristas afirmam tranquilamente. Não é feio copiar, melhorar, adaptar quando você está sendo honesto ao admitir isso. Pelo contrário: quando fazemos, usamos um eufemismozinho e chamamos de “referências”.

O Senhor das Moscas, de William Golding, é um exemplo formidável disso. Dele provieram a série Lost e – possivelmente – o filme Náufrago. Conta a história de um grupo de meninos cujo avião cai numa ilha e tem de sobreviver por seus próprios meios. Não tarda o início dos conflitos e as disputas de liderança tendo, além disso, de enfrentar os perigos que ilha oferece.

o senhor das moscas - capa

Como todo bom romance inglês, a história é seca. Mostra a verdadeira face humana, com seus poros sujos e pustulentos. O autor teve uma sensibilidade absurda ao descrever ações e sentimentos totalmente realistas. Não obstante o comportamento dos personagens seja exagerado por serem crianças, seria tudo verossímil se fossem adultos. Pois tematiza aquilo que vivenciamos em nosso dia a dia: o embate entre a razão e a animalidade, o poder por merecimento e pelo medo, o egoísmo versus o bem comum, etc.

Seus personagens são milimetricamente delineados. Há especulações, inclusive, que isso se daria devido do pesado simbolismo do livro, onde cada personagem representa uma força política (democracia, fascismo, ciência, religião, etc). Independente disto, todavia, não soa em momento algum artificial. Pelo contrário: Assim como Shakespeare, Golding faz com que todo tipo de leitor encontre alguém em seu texto com quem se identificar.

Um ponto que me chamou muito a atenção foi o talento sinestésico do autor. Tanto que eu não sabia o que era “sinestésico” e tive de procurar: é quando se une palavras que não deveriam ser usadas juntas para dar uma ideia associativa sobre algo. Por exemplo: “Dirigiu-lhe uma palavra branca e fria como agradecimento” ou “Como era áspero o aroma daquela fruta exótica”. Palavras não têm cores e aromas não são tangíveis, mas o sentido da coisa é captado de forma muito lúcida.

Não há muitas subtramas. As que existem se fecham em prol da trama principal. O que dá fluidez à leitura e remete o formato do texto mais à novela do que ao romance.

O narrador é onisciente, mas o ponto de vista se dá quase que absolutamente pelo protagonista. Ele evidencia as indecisões e as induções sofridas por ele, conferindo uma tensão intensa à narrativa.

É um livro ao qual não teria o que sugerir. Do qual não diria “poderia ter feito isso, mudado aquilo”. Está, certamente, dentro do meu hall de favoritos. Leva um Café Vienense, mais que merecido.
[rating=5]

PS.: Enquanto escrevia essa resenha descobri que essa foi a obra de estreia do autor. E que, não satisfeito em estrear com algo dessa magnitude, nosso amigo arrebatou com ela o prêmio Nobel de Literatura em 1983. É mole?

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7 Responses to O Senhor das Moscas

  1. Bruno Eleres disse:

    Algo que costumo comentar quando as pessoas falam que é algo é clichê ou cópia de outra obra. Certa vez fiz um texto sobre isso:

    http://un-cafe-a-clichy.blogspot.com.br/2013/04/copia-infiel.html

    :]

    • mm Douglas disse:

      Olá Bruno! Obrigado pela visita!

      Li seu post e concordo contigo. Penso, todavia, que algumas coisas podem ser vistas separadamente: inspirar-se numa obra, fazendo referência a ela (pegue os filmes do Tarantino como exemplo) é saudável desde que acresça a criatividade. O plágio é tosco, pois de forma geral não agrega nada, é só um ctrl+c/ctrl+v de ideias e decepciona quando você descobre que o plagiador é apenas um enganador.

      Quer um exemplo? Você sabia que a música “Eu nasci há dez mil anos atrás”, supostamente composta pelo Paulo Coelho e o Raulzito é um plágio de uma música do Elvis chamada “I Was Born About Ten Thousand Years Ago”. Se você pegar a letra, vai se apavorar com a quantidade de coincidências… Isso já era esperado do Paulo Coelho (se você procurar textos da mitologia Hindu, vai encontrar muita coisa “parecida” com os livros dele), mas o Raul precisava disso? Como fã do maluco beleza, fiquei tremendamente desapontado.

      Já o clichê é uma outra história. É um vício de estilo. Quando começamos a nos dedicar a alguma coisa, sobretudo no meio artístico, é normal que copiemos, mesmo inconscientes, o estilo de nossos mentores ou modelos. Mas – em se tratando de literatura – o autor precisa fugir disso desesperadamente para que alcance seu estilo próprio. Para leitores ávidos como suponho que você seja, pense quantas vezes você viu um livro que começa com um despertar numa manhã ensolarada, ou quantas vezes os cabelos loiros da mocinha são comparados a raios de sol… Nisso, o próprio William Golding foi magistralmente hábil a usar comparações inesperadas, com seus estilo sinestésico bem criativo.

      Um abração!

      D.

  2. Rodrigo Reis disse:

    Quero muito ler esse livro, já está em minha lista a quase um ano. Com essa resenha reforço a vontade de ler. Muito boa!!

  3. Andre disse:

    Estou no final do livro e acabei encontrando o post. Gostei muito, vou voltar sempre. Abraço

  4. Monica Lopes Nevoa Guimaraes disse:

    Douglas, o filme Náufrago se aproxima mais de Robinson Crusoe de Defoe. Dá uma olhada e veja se você não concorda. O romance Senhor das moscas discute a essência humana quando não vigiada ou limitada pelas cercas da sociedade urbana e civilizada.

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