O círculo, de Dave Eggers

1 de julho de 2017
in Category: Resenhas
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O círculo, de Dave Eggers

O círculo, de Dave Eggers

O círculo
Dave Eggers

“Encenado num futuro próximo indefinido, o romance conta a história de Mae Holland, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo: O Círculo. Sediada num campus idílico na Califórnia, a companhia incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade on-line única e, por consequência, uma nova era de civilidade e transparência.”
(fonte: https://www.companhiadasletras.com.br)

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Essa foi uma leitura não programada. O livro estava na prateleira dos não-lidos já há algum tempo. Com a estreia do filme, tive um pretexto para tirá-lo de lá e passá-lo na frente dos demais da fila de leitura. E não me arrependi. Devorei as 500 e poucas páginas em 3 dias, satisfeita e pronta para assistir ao filme. Mas vamos aos fatos, pois minha opinião não conta como argumento a favor ou contra, certo?

É importante destacar que, estilisticamente, o texto de Eggers está longe de ser uma obra prima, mas a temática é instigante o suficiente para compensar as falhas. Há descrições em excesso e mal colocadas. Há personagens rasos que fazem o leitor questionar a necessidade de sua presença na trama. Há cenas mal estruturadas que, por muitas vezes, tiram o leitor da imersão. E, apesar disso, é uma leitura agradável.

O que envolve mesmo o leitor é a temática. O autor cria um micro-universo em uma empresa, num futuro indefinido, mas que bem poderia existir hoje. Uma empresa inovadora, focada em soluções tecnológicas para aumentar o bem-estar das pessoas. Soou familiar? Algum nome veio à mente logo de cara? Pois é. Essa familiaridade é a responsável por nos vermos tão absortos na história de Mae. O modo como a empresa atua, a forma como as pessoas atuam não é desconhecido da maioria da sociedade atualmente.

“Como você pode ver, sua classificação agora é baixa, mas é porque você é nova e acabamos de ativar seu feed social. Porém toda vez que você posta ou comenta ou acompanha alguma coisa, isso vai ser computado e você vai ver como sua posição no ranking muda. É aí que está a graça dessa história. Você posta, sua classificação sobe. Uma porção de gente gosta do que você postou, e aí você dispara para valer. A coisa se movimenta o dia todo. Não é legal?”
(pag. 112)

O autor cutuca impiedosamente a questão do uso excessivo – e, talvez, abusivo – da tecnologia, da perda de privadade e da falsa noção de sociabilização. É claro que, lendo o livro hoje, depois do fenômeno Black Mirror, parece ter menos impacto e, erroneamente, dá a impressão de que faz referência à série. Quando, provavelmente, ocorreu o inverso. Quem já assistiu à terceira temporada, deve se lembrar do primeiro episódio, com Bryce Dallas Howard. Pois bem, a cultura dentro do Círculo é exatamente aquela explorada nesse episódio – só que elevada à décima potência. É o empenho não em SER um bom profissional, um bom colega de trabalho ou, o mais importante, uma boa pessoa; mas sim em curtir e ser curtido por PARECER ser um bom profissional, bom colega de trabalho ou uma boa pessoa. Em suma, a pontuação atingida passa a ser o mais importante.

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E a crítica não para aí. A maneira como a ideologia da empresa é apresentada e incutida nos funcionários tem um quê de The wave – filme baseado em fatos reais, produzido para a tv norte-americana em 1981, e com uma versão alemã lançada em 2008. A formação de uma “consciência de classe” baseada no uso de slogans e palavras de ordens é semalhante tanto na escola do filme quando no Círculo. E são as mesmas ferramentas utilizadas por governos ditatoriais para convencer a população que o bem estar geral importa mais que o individual.

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Dave Eggers

Há também crítica à clássica e mais que antiga estratágia do “pão e circo”. No Círculo, há festas, shows e confraternizações praticamente todos os dias da semana. Ai de quem não se socializar. É logo chamado “à salinha da diretoria” para ser questionado sobre sua atitude anti-social. Afinal, como manipular um funcionário que não comparece aos eventos da empresa?

A grosso modo, os eventos que o livro aborda podem ser comparados a fatos reais em governos explicitamente totalitaristas (nazista, maoísta, stalinista) ou sociedades dominadas por corporações – que Orwell evoca tão bem em 1984. Mas a abordagem de Egger não é tão opressiva. A visão caricatural que ele dá desse possível futuro consegue obter o mesmo efeito no leitor. Difícil ler o livro e não parar, ao menos uma vez, para se perguntar se já não estamos agindo de forma semelhante aos personagens do livro. Talvez seja isso que o autor nos queira fazer ver: que, no futuro, o mal talvez se pareça mais com uma horda de jovens estilo Mae do que com o assustador olho do Big Brother.

Vale um Capuccino
4 out of 5 stars

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Leia um trecho
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13554.pdf


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