A história dos meus dentes

3 de novembro de 2016
in Category: Parceria, Resenhas
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A história dos meus dentes

A história dos meus dentes

A história dos meus dentes
Valeria Luiselli

Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como “Estrada”, tem uma missão: quer trocar todos os seus dentes. Ele possui algumas habilidades que podem ajudar nessa empreitada, como, por exemplo, imitar Janis Joplin e decifrar biscoitos da sorte chineses. Além disso, ele é o melhor leiloeiro do mundo — mesmo que ninguém saiba disso, já que ele é muito discreto.
(fonte: 2ª orelha do livro)

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A autora conta ao final do livro – o que não garante que a história também não faça parte da obra ficcional – que ela foi convidada, em janeiro de 2013, a escrever o texto do catálogo de uma exposição que se realizaria na Galeria Jumex. A coleção contida nessa galeria é financiada pela fábrica de sucos Jumex e é uma das maiores e mais importantes coleções de arte contemporânea do mundo. O texto encomendado deveria refletir sobre as pontes entre a própria galeria e o contexto em que se insere. Mas mais que escrever sobre a distância entre o universo artístico da galeria e o chão de fábrica e seus operários, a autora queria escrever para os operários, fazendo deles, de certa forma seus leitores-beta. Começou a escrever o romance em fascículos, que eram lidos para os trabalhadores durante a jornada de trabalho. A ideia evoluiu e os fascículos eram impressos e distribuídos, depois discutidos em um clube de leitura, cujas conversas eram gravadas e enviadas à autora. Valeria ouvia as críticas e sugestões, incorporava à história causos contados pelos operários, escrevia um novo fascículo e lhes enviava. E assim seguiu o trabalho, sem que a autora e os operários se encontrassem.

É um livro difícil de definir. É estranho, non-sense, engraçado, enigmático, curioso, filosófico, experimental. A explicação sobre o processo de criação da obra ajuda a entender um pouco algumas das estranhezas do texto. Mas ainda assim é provável que boa parte dos leitores se veja na mesma “sinuca de bico” que eu – ao terminar a leitura, não conseguia dizer se tinha gostado ou não. Algo do tipo “gostei detestando” ou “detestei gostando”. Não tentarei explicar minha opinião, mesmo por que ela pouco importa para esta resenha. Fim do comentário.

“Sou o melhor leiloeiro do mundo. Mas ninguém sabe disso porque sou um homem comedido. Meu nome é Gustavo Sánchez Sánchez, e todos me chamam, creio que carinhosamente, de Estrada. Posso imitar Janis Joplin depois de duas cubas-libres. Sei interpretar biscoitos chineses da sorte. Posso colocar um ovo de galinha em pé numa mesa, como fazia Cristóvão Colombo na famosa anedota. Sei contar até oito em japonês: ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi. Sei boiar de costas.
Esta é a história dos meus dentes. É meu ensaio sobre os colecionáveis e o valor inconstante dos objetos. Primeiro vêm o princípio, o meio e o fim, como em qualquer história. O resto, como um amigo meu sempre fiz, é literatura: hiperbólicas, parabólicas, circulares, alegóricas e elípticas. E depois não sei mais o que vem. Possivelmente a ignomínia, a morte e, mais tarde, a fama post mortem.”
(p.13)

No primeiro capítulo, o leitor fica conhecendo um pouco do passado de Estrada, um pouco de sua infância e dos eventos que o fizeram ir de segurança de fábrica a leiloeiro. As técnicas de leilão, aprendidas em um dos muitos cursos frequentados por ele, nomeiam os capítulos II a VI – hiperbólicas, parabólicas, circulares, alegóricas (esta, inventada pelo próprio Estrada) e elípticas. E a narrativa de cada capítulo acompanha, ou reflete, a técnica de leilão do título. As técnicas variam de acordo com o teor “inventivo” da descrição do item a ser vendido, isto é, do quanto o objeto depende das histórias a seu respeito para ter sucesso no leilão. E, conforme é ensinado a Estrada, devem ser escolhidas de acordo com a audiência – mais ou menos receptiva. Um chapéu, por exemplo, pode ser simplesmente um objeto num modelo diferente dos demais, como pode ser o chapéu que Santos Dumont usou durante o primeiro voo do Demoiselle.

Há, implicitamente, uma análise sobre o “contar histórias”; sobre como agradar ao público ouvinte (ou leitor); sobre o teor fantasioso que o público aprecia ou descarta; sobre o que contar e o que omitir. E não apenas sobre o contar histórias, mas sobre o acordo tácito com o leitor, que aceita ser “enganado” ao adquirir um produto ficional. O questionamento sobre o valor dos produtos, dos objetos é uma constante em todo o livro. E indo além, discute-se o valor da arte e sua conceituação. Nesse aspecto, alguns trechos lembram um pouco a conversa entre Driss (Omar Sy) e Philippe (François Cluzet), em Intouchables – em que Driss chega à conclusão de que se uma mancha vermelha numa tela branca é arte, ele também pode ser um artista, já que se sente plenamente capaz de produzir algo semelhante.

Narrado em primeira pessoa, o texto mais se assemelha a uma conversa do que a um livro, com direito a digressões que, intencionalmente ou não, testam o interesse do leitor. O protagonista é um bufão. O tom burlesco que usa ao narra sua história soa exagerado em alguns pontos, mas tem tudo a ver com a natureza do personagem. Afinal, alguém capaz de leiloar (e vender) um lote de dentes a um grupo de velhinhos tem de ter lábia, e ele a exercita muito bem ao narrar o que lhe sucede. Percebe-se que a autora bebe de várias fontes do realismo fantástico latino – Borges, Cortázar, Bolaño e, mesmo, Calvino. O tom fantasioso que permeia o texto, que se reflete nas histórias de Estrada, faz o leitor suspeitar da veracidade dos fatos. Estrada não é um narrador confiável. E no epílogo, sob o ponto de vista de outro personagem, Voragine, o narrador levanta essas mesmas suspeitas:

“Quando Estrada começou a me contar suas histórias, cheguei a pensar que ele fosse um mentiroso compulsivo. Mas, depois de viver com ele, percebi que tinha menos a ver com mentir do que com superar a verdade. Estrada foi um desses espíritos enormes, eternos. Sua presença às vezes era ameaçadora, não porque fosse uma ameaça real para alguém, mas porque contra a sua liberdade feroz todos os parâmetros com os quais estamos acostumados a medir o mundo pareciam triviais.”
(p.125)

Não resta dúvida de que Valéria vende muito bem sua história aos leitores, que a compra não sem certa estranheza, mas a compra apesar da estranheza.

Vale um Macchiato
3 out of 5 stars

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