Lugares escuros, de Gillian Flynn

11 de agosto de 2015
in Category: Resenhas
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Lugares escuros, de Gillian Flynn

Lugares escuros, de Gillian Flynn

Lugares escuros
Gillian Flynn

Custava a editora manter o projeto editorial e publicar o livro com a mesma estética dos outros dois? Poderiam ter copiado a ideia da edição original: Garota exemplar, Objetos cortantes e Lugares escuros compartilham o layout de capa, mudando apenas a cor da tipografia – vermelho, azul e verde, respectivamente. Que leitor não gostaria de ter a coleção uniforme? Bem, é apenas o lamento de uma leitora viciada, que ainda prefere edições em papel e que abomina livros com “capa de filme”. Mas o objeto desta resenha não é o meio, mas a mensagem, o conteúdo. Conteúdo este que, para alívio dos leitores que se tornaram fãs incondicionais de Flynn depois de lerem Garota Exemplar, não deixa nada a desejar. Talvez um pouquinho em alguns trechos, mas o conjunto faz valer a leitura.

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“Elas passam marchando como pinguins pela minha casa toda manhã, mas nunca as vi voltar. Pelo que sei, contornam o mundo inteiro e voltam a tempo de passar pela minha janela novamente na manhã seguinte. Qualquer que seja a história, sou apegada a elas. Há três meninas e um menino, todos com preferência por casacos vermelhos brilhantes, e, quando não os vejo, quando durmo demais, fico realmente triste. Ainda mais triste. Essa é a palavra que minha mãe usaria, não algo tão dramático quanto deprimida. Eu ando triste há vinte e quatro anos.”
(p.10)

Aos 7 anos de idade, Libby Day sobreviveu ao massacre que vitimou sua mãe, Patty Day, e suas duas irmãs mais velhas, Michelle e Debby, na fazenda da família. Ben, o irmão mais velho, então com quinze anos, tornou-se o principal suspeito por não ter um álibi plausível e, principalmente, por Libby ter afirmado que o viu cometendo os crimes. Vinte e cinco anos depois, Ben continua preso e Libby vive uma vida sem propósito, vendo o dinheiro minguar ano após ano. Ao ser contatada pelo Kill Club, um grupo de pessoas obcecadas por crimes famosos, é convencida a começar a fazer perguntas e revisitar o passado, questionando suas próprias lembranças.

Mais uma vez, Flynn confirma sua habilidade em escrever personagens femininas incomuns, que fogem dos estereótipos usuais. Longe de ser uma daqueles heroínas simpáticas, que cativam o leitor logo de cara, Libby é estranha. Seu comportamento causa um distanciamento do leitor, que não tem certeza se gosta dela ou não, se sente pena ou desprezo. Parece inverossímil que alguém que passou por uma tragédia como a dela, que tenha enterrado suas lembranças da forma como ela fez, tope reviver tudo e mergulhar no passado para satisfazer a curiosidade de um grupo de obcecados por crimes em troca de alguns trocados. Contudo, a própria personagem brinda o leitor com uma boa explicação:

“Tentei imaginar coisas que pudesse fazer para ganhar dinheiro. Coisas que adultos faziam. Eu me imaginei com gorro de enfermeira, segurando um termômetro; depois com um uniforme azul justo de policial, ajudando uma criança a atravessar a rua; depois usando pérolas e avental florido, preparando o jantar para o meu maridinho.
(…)
Tentei me lembra de ocupações realistas – algo que tivesse a ver com computadores. Inserções de dados, isso não era um trabalho? Atendimento ao cliente, talvez? Uma vez vi um filme em que uma mulher ganhava a vida passeando com cachorros, vestindo macacão e moletom, e sempre segurando flores, os cachorros babando e amáveis. Mas eu não gostava de cachorros, eles me assustavam. Finalmente pensei em algum trabalho relacionado à fazenda, claro. Nossa família fora de fazendeiros por um século, chegando à minha mãe, até Ben matá-la. E aí a fazenda foi vendida.
De qualquer forma, eu não saberia cuidar de uma fazenda.
(…)
Pensei: o que faz um assistente administrativo?”
(p.15)

É difícil se identificar com a personagem e se importar com ela ou com o que pode lhe acontecer, mas mesmo assim a autora consegue fazer o leitor continuar lendo. Em parte pela curiosidade em talvez descobrir afinal o que houve naquela noite; em parte pela expectativa de que em algum momento a personagem se torne um pouco mais “amigável” e menos arredia à medida que conhecemos pouco a pouco sua história.

Flynn se utiliza de recursos narrativos que fazem do livro um page turner (literalmente, um virador de páginas). E não são apenas os cliffhangers ao final de cada capítulo. Astutamente, a autora estruturou a história com duas linhas narrativas: uma atual, escrita em primeira pessoa – em que acompanhamos Libby em sua busca por explicações; outra, no passado, narrada em terceira pessoa – em que acompanhamos a família Day nas horas que antecederam ao massacre. Foi muito acertada a decisão de mostrar ao leitor os pontos de vista de todos os personagens envolvidos na tragédia. Mais acertada ainda a estratégia de alternar cada capítulo do passado com um do presente. Ótima união entre flashbacks e alternância entre PoV (points of view), técnica consagrada por George R.R. Martin.

Vale reparar em um detalhe pequeno, mas interessante: os nomes dos capítulos. Cada capítulo é nomeado com o nome do personagem cujo ponto de vista será descrito – Ben Day, Patty Day, Libby Day, etc. Infelizmente, o trocadilho não funciona em português, mas em inglês tanto pode ser o nome do personagem como “o dia do personagem”. Não influencia a história, mas é uma sutileza cativante.

Assim como em Garota exemplar, há aquele ponto de virada, popularmente conhecido como “momento ‘PQP! não acredito!'”. Flynn vai conduzindo o leitor, que, como em qualquer livro policial, vai acentando hipóteses que se encaixam, mas não totalmente. E quando menos se espera, vem a revelação. E, não satisfeita em colocar um momento assim, a autora dispõe outro, tão ou mais impactante, a poucas páginas do final. E, certamente é um exemplo de auto-controle o leitor que não deixar escapar um sonoro palavrão – eu deixei, em voz baixa, mas deixei. E a reação não é apenas pelo evento da história em si, e nem por nos sentirmos meio tolos por não perceber “aquilo chegando”, mas também por apreciar a capacidade da autora em nos ludibriar – com nosso consentimento, lógico.

Quem leu Garota exemplar não se decepciona e quem não leu tem uma excelente oportunidade de conhecer o estilo da autora.

Vale um Capuccino
4.5 out of 5 stars

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