Pra Ser Sincero

10 de julho de 2014
in Category: Parceria, Resenhas
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Pra Ser Sincero

Estou escrevendo um material sobre literatura onde abordo seus aspectos conceituais e dou uma pincelada sobre os gêneros e as formas de prosa e poesia. Tenho procrastinado, confesso, entrar no gênero poesia por um motivo simples: me sinto pouco a vontade com ela. Não é que não goste. Sou fã de grandes poetas como Bocage, Bilac, Vinícius de Moraes e outros tantos. Mas minha intimidade com os versos sempre foi um pouco arredia. Como uma namorada com a qual não é possível ter uma conversa sem brigar mas que na cama tudo se torna fogos de artifício.

Entrei oficialmente, digamos, no mundo da literatura escrevendo poesias. Nunca, entretanto, tive muito deslumbramento com meu trabalho como poeta. Preenchi algumas páginas, gerei umas seis ou sete músicas (que gravei com minhas pseudo-bandas), mas nunca encarei a coisa com a mesma seriedade com que vejo a prosa.

A subjetividade da poesia me incomoda um pouco. Não gosto de meias palavras. Gosto de sim e não. Zero ou um. Oito ou oitenta. Ou me atiro de cabeça e vou até o fim ou não vou me sujar fumando apenas um cigarro. A subjetividade da prosa é diferente: você diz o mínimo que basta, sugerindo, talvez, um pouco mais. Na poesia, você não diz o que basta. O leitor que invente o resto.

O livro Pra ser sincero de Humberto Gessinger (vocalista, líder, baixista, produtor e tudo mais) da banda Engenheiros do Hawaii é carregado de subjetividade poética. O trabalho está belíssimo: papel de revista, muitas fotos, cores, bem diagramado, bem desenhado. Mas o texto… O texto está bom. Só isso. Está bom.

Pra Ser Sincero

Sendo Engenheiros uma banda gaúcha, eu tinha de gostar (falei sobre o “gauchismo” no meu último post e o destino me trouxe às mãos outro autor gaúcho). No Rio Grande do Sul, até os metaleiros mais ortodoxos gostavam de Engenheiros (que era uma banda pop-rock mesmo antes deste termo ser inventado). Era a única banda gaúcha da época que fazia sucesso de verdade no resto do Brasil sem perder as raízes gaudérias. Assim, eu tinha de gostar.

E eu gosto. Contudo, para mim eles sempre foram uma banda boa. Só isso. Boa. Não espetacular, nem porcaria. As letras de Gessinger são poesias bastante subjetivas. Por vezes – para meu entendimento – desconexas. Então simplesmente não conseguia me identificar 100%. E o seu livro possui intensamente esse tom de mais-ou-menos. Lembrou-me um pouco a biografia de Stephen Hawking: o cara certamente tem uma história fantástica para contar, porém a serve como café morno.

Um fato curioso: sempre ouvi falar que o Gessinger é arrogante. Não me pareceu no livro. Entretanto, percebi alguns itens interessantes: 99% das músicas foram compostas por ele e ele faz questão de demonstrar isso. De todas as mudanças de formação do grupo, ele sempre se colocou como “o mentor que permite seus discípulos irem embora e seguirem seu rumo” e repete muito a expressão “ao menos para mim”, o que mostra nas entrelinhas que alguém discordava dele e ele não se importa. Além disso, o livro termina com um capítulo escrito por um amigo/crítico que se rasga em elogios. Estas parecem características de pessoas arrogantes. Ao menos para mim.

Apesar da brandura excessiva do texto e o tom hipongo irritante (segundo os meus critérios pessoais), não desmerece em nada o apreço que tenho pela banda e foi legal passear pela sua trajetória. Como oitentista, eu também vivi aqueles dias e alguns pedacinhos daquela história.

Vale um Espresso
2 out of 5 stars

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Lançamento do livro, na Livraria da Vila. (foto: publishnews.com.br/)

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