Precisamos falar sobre o Kevin

3 de julho de 2014
in Category: Resenhas
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Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin
Lionel Shriver

Já há algum tempo queria ler esse livro – foi um dos primeiros que “coloquei” no kindle – principalmente depois de ter lido outro livro da autora, Grande irmão. O empurrãozinho essencial veio quando o filme apareceu no catálogo do Netflix. Eu não havia assistido ainda e queria ler o livro antes, lógico. E, como em 99,99% dos casos, essa decisão revelou-se a melhor possível. Não apenas porque livros costumam ser melhores – isso é fato consumado, inquestionável, salvo algumas poucas exceções. Mas principalmente porque alguns fatos essenciais teriam perdido todo o impacto durante a leitura caso eu já soubesse algo a respeito.

precisamos falar sobre o kevin

Sobre o filme, só mais algumas palavras. Apesar de, ao ler o livro, tê-lo colocado na categoria dos “impossíveis de adaptar para o cinema”, o roteirista/diretor Lynne Ramsay até que conseguiu transpôr a história de uma mídia a outra satisfatoriamente. Não chega a ser uma obra-prima, mas é melhor que muitas adaptações por aí.

Assim como tantas outras obras de qualidade bem acima da média, a premissa é simples. Kevin Khatchadourian, um adolescente de 16 anos, é autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio dos subúrbios de Nova York. A partir daí a autora discute família, casamento, maternidade, educação, amor, amizade, respeito, consumismo, alienação, violência, culpa, solidão, arrependimento. E ela o faz não numa narrativa linear, mas utilizando-se de uma estrutura epistolar. (Um parênteses aqui: me ganhou logo de início, pois gosto demais de livros nesse formato). A mãe de Kevin, Eva, após “o evento” começa a escrever uma série de cartas ao marido, Franklin, em tom confessional, numa combinação de diário, memórias e desabafo.

“A culpa confere um poder espantoso. E simplifica tudo, não só para os espectadores vítimas, mas, sobretudo, para os culpados. Ela impõe uma ordem à escória. A culpa ensina uma lição muito clara da qual outras pessoas talvez possam obter consolo: se ao menos ela não…, e com isso torna a tragédia evitável.”
(p.74)

E um dos trunfos do livro é justamente essa opção narrativa. Não há, como numa narrativa “convencional” em primeira ou terceira pessoa, trechos em que o narrador descreve, mesmo que ligeiramente, personagens e ambientes. Ao leitor é dada a missão de construir todo o universo de Eva a partir das cartas, juntando fragmentos e detalhes, enquanto ela rememora o início do namoro, a decisão de engravidar, as primeiras semanas com Kevin; ou quando fica saudosa de sua profissão ao compará-la à sua atual ocupação; ou ao entrar em fluxos de consciência que invariavelmente acabam em questionamentos sobre o que ela poderia – ou deveria – ter feito para evitar o que aconteceu, se é que havia algo a ser feito. Desse modo, as peças do quebra-cabeça vão se juntando aos poucos, dando ao leitor aquela satisfação ao encaixar mais uma (calorzinho no peito define).

Lionel Shriver

Lionel Shriver

É uma pena que tanto a sinopse do livro quanto a do filme já entreguem o que Kevin fez, pois o livro começa sem que se saiba exatamente o que houve. A revelação de que ele é um assassino ocorre apenas na quarta carta. E a descrição completa (ou quase) do “evento” só vai aparecer no último terço do livro. Acredito que essa descoberta seria mais um importante ponto de virada. Perde-se, em linguagem popular, um ótimo “momento PQP!”, aquela hora em que o leitor tira os olhos do livro e pensa – em voz alta ou não – “não acredito! como ele (o autor) pôde fazer isso comigo?”. É a busca por repetir momentos assim que nos faz continuar lendo. Sem dar spoilers, um outro momento assim ocorre próximo ao final do livro e é um daqueles que obrigam o leitor a parar por alguns minutos para recuperar o fôlego antes de prosseguir na leitura. Mesmo que eu tenha desconfiado um pouco do que estava por vir – afinal, a autora vai deixando algumas migalhas pelo caminho -, o modo como veio foi bem no estilo Jack Bauer – “pé na porta e tapa na cara”.

“Quanto tento me lembrar daquela segunda-feira, minha mente se abaixa como se tentando escapar de uma bola de vôlei em movimento. Aí a memória se curva centrifugamente de volta, de tal sorte que, quando me ergo de novo, ela me atinge na cabeça.”
(p.324)

Mas não apenas de momentos tensos é feito o livro. A escrita intensa e crua de Shriver pega o leitor de jeito e atinge-o em cheio. Há momentos em que a intimidade da carta é tamanha que tem-se a impressão que é dirigida ao próprio leitor e o efeito disso é devastador. Não é preciso ser mãe ou pai para se identificar com as indagações que permeiam todas as cartas. Aquela que se repete ad infinitum, “onde foi que eu errei?”, é apenas a síntese de todas as outras. “É possível alguém ser assim tão cruel desde criança?”, “O que eu (ou Franklin) deveria ter feito”, “Havia algo que poderia ser feito?”, “Eu ou Franklin poderíamos ter previsto que algo assim ocorreria?” e, talvez a mais incômoda, “É possível uma mãe (ou pai) odiar seu próprio filho?”. A narrativa é ao mesmo tempo tão envolvente e provocativa que, a cada questionamento de Eva, o leitor se pega pensando “e se fosse comigo?”.

Não é um livro fácil. Tanto pela temática quanto pelas idas e vindas de Eva enquanto escreve. Mas o empenho do leitor será regiamente recompensado.

Vale um Café Vienense
5 out of 5 stars

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9 comments on “Precisamos falar sobre o Kevin”

  1. Gostei da tua resenha. Li-o há 2 anos, livro inquietante. Um questionamento se colocava a respeito de Kevin, se Eva com sua rejeição não contribuiu para o que ele fosse em antissocial? E uma certeza: amor materno é um mito.

  2. Valéria QD disse:

    Muito bom este livro…preciso reler.

  3. Cristine Tellier disse:

    Olá Valeska,
    Obrigada pelo comentário 🙂

    É difícil concluir "quem rejeitou quem?". É uma questão um pouco tostines: Kevin passou a ser mais antissocial pela rejeição da mãe ou Eva passou a rejeitá-lo mais ao sentir a animosidade do filho? Ambos estavam presos num círculo vicioso.
    Sobre o mito do amor materno, vale a leitura de um outro livro – "Um amor conquistado", de Elisabeth Badinter – que destrincha a alteração dos conceitos de infância e maternidade ocorrida a partir do século XVIII.

    Abraços e boas leituras 😀

  4. Cristine, obrigada pela indicação. Li este livro quando fazia o curso de Ciências Sociais (UFSC). Nas aulas de Antropologia do Gênero. Abraço!

  5. Lorrane disse:

    Estou doida pra ler esse livro! E a sua resenha só me deixou com mais vontade ainda.
    Parece incrível, gosto de livros fortes e intensos, espero que esse não me decepcione.
    Parabéns pela resenha! ^^

    dreams-books-love.blogspot.com.br

    1. Cristine disse:

      Olá Lorrane
      Obrigada! Que bom que gostou. E se você gosta de livros fortes e intensos, esse é sob medida.

      Abraços e boas leituras 🙂

  6. Gláucia disse:

    Cristine, excelente sua resenha e você tem razão, nossas impressões foram bem parecidas. Ler sem saber o que Kevin fez teria sido outra sensação, muito impactante. Mas esse é o tipo de livro que parece que todo mundo sabe de que se trata, mesmo sem ter lido. Será que alguém fez a leitura sem saber?

    1. Cristine disse:

      Gláucia, acho que apenas os sortudos que leram o livro antes de o filme ser lançado tiveram a sorte de serem surpreendidos por todos os plot twists. Juro, eu os invejo! 🙂

  7. Aline T.K.M. disse:

    Esse livro foi inesquecível, um dos melhores ever. Mas eu fiz o caminho inverso, vi o filme e gostei tanto – sim, eu amei o filme, as atuações, tudo – que decidi que tinha que ler o livro. E aí caí de amores pelo livro, foi inevitável. Claro que concordo que o livro é muito mais completo que o filme, mas eu tento não ficar comparando. Uma das coisas de que mais gostei no livro é o jeito cru com que a autora constrói a narrativa, e também toda a parte psicológica envolvendo a relação da mãe com o filho. Incrível.
    Beijos,
    Aline – Livro Lab

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