Olhe para mim, de Jennifer Egan

8 de março de 2014
in Category: Parceria, Resenhas
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Olhe para mim, de Jennifer Egan

Olhe para mim
Jennifer Egan

Publicado originalmente em 2001, tem um enredo grandioso e interliga personagens muito diferentes. Os dois principais chamam-se Charlotte: a primeira, uma modelo com trinta e tantos anos, que depois de sofrer um terrível acidente de carro tenta reconstruir seu rosto e sua vida. A outra, filha da antiga melhor amiga de colégio da modelo, é uma adolescente imprevisível que vive numa pequena região de Illinois. Um excêntrico professor obcecado pelo passado industrial da cidade onde nasceu, um detetive particular divorciado e infeliz e um estranho enigmático que troca nomes e sotaques enquanto prepara um ataque apolítico contra a sociedade americana são outros personagens de um elenco tão diverso quanto numeroso.
(fonte: http://www.intrinseca.com.br/site)

olhe para mim

Por mais que uma premissa seja interessante, que uma trama seja cativante, o modo como se conta a história importa e muito. Se for confuso, ou trivial, ou sem graça, ou inadequado, há grande possibilidade de o leitor perder o interesse na leitura e, caso persista, encontre-se num impasse ao chegar ao final do livro, sem saber ao certo se gostou ou não. É o que acontece com Olhe para mim.

A premissa é interessante sim. Afinal, a história de uma modelo famosa que sofre um acidente e “perde” seu rosto leva a várias discussões sobre identidade, aparência(s), futilidade, superficialidade dos relacionamentos, consumismo. E a primeira parte do livro, apesar de o texto não fluir bem em algumas (muitas) partes, consegue envolver quem lê. Em vários trechos, tem-se aquele lampejo, aquele vislumbre de que a qualquer momento, o texto irá se tornar mais fluido e a narrativa irá decolar, “carregando” consigo o leitor. Mas a primeira parte termina e isso não acontece. E a segunda parte consegue apenas fazer com que se queira chegar logo ao final.

“Após doze horas de cirurgia – durante a qual oitenta parafusos de titânio foram implantados nos ossos esmagados do meu rosto para ligá-ls e prendê-los; após eu ter sido cortada de orelha a orelha no tampo da cabeça para o Dr. Faberman poder puxar para baixo a pela da minha teste e prender novamente os ossos das minhas maçãs do rosto à parte superior do meu crânio; após terem sido feitas incisões dentro da minha boca para ele poder conectar os meus maxilares inferior e superior; após onze dias durante os quais minha irmã tremia ao lado da minha cama de hospital como um anjo apreensivo enquanto seu marido, Frank Jones, que eu detestava e que me detestava, ficava em casa com as minhas duas sobrinhas e o meu sobrinho – , tive alta do hospital.”
(p.12)

Vários fatores contribuem para esse resultado. A quantidade grande de linhas narrativas. A de Charlotte, a modelo, é narrada em primeira pessoa; todas as demais, em terceira. Por si só, já é um motivo de incômodo, mesmo que passageiro. Além de dar a impressão de que a autora não conseguiu se decidir entre ter um único ponto de vista ou ter vários, o narrador em terceira não tem limites definidos, oscilando entre o narrador demiúrgico, onisciente, e o oculto – que deveria ater-se apenas ao que determinado personagem vivencia. Se é uma liberdade estilística, se era intenção da autora desnortear ligeiramente o leitor, não tenho como afirmar. Mas compromete a fluidez da leitura.

jennifer egan

Jennifer Egan

Ainda sobre as múltiplas linhas narrativas, qualquer leitor mediano irá esperar que em algum momento elas se entrelacem ou ao menos que se influenciem. E isso acontece sim, porém quase no final do livro. Como se de repente a autora percebesse que o fim estava próximo e resolvesse fazer as linhas narrativas convergirem em menos de dez páginas, o que deixa tudo muito “corrido” e, por conseguinte, pouco convincente.

A prosa é poética. Aliás poética até demais, chegando a ser prolixa em muitos trechos. Não li outros livros de Egan, então não tenho parâmetro de comparação. Pode ser que esse seja seu estilo de escrita. Mas fiquei com a impressão de que ela estava “jogando conversa fora”, com trechos banais e até mesmo cenas inteiras que não acrescentam e nem fazem a história avançar, principalmente os excertos das dissertações da Charlotte adolescente. Muito poderia ser cortado, deixando o livro menos extenso e a leitura menos tediosa.

Não sei, talvez eu tenha iniciado a leitura com expectativas demais, depois de tantas críticas positivas sobre o livro anteriormente publicado pela Intrínseca, A visita cruel do tempo. Talvez se eu o tivesse lido na época do lançamento, em 2001, a história assumiria mais importância e o esforço da autora em demonstrar como os norte-americanos vêem a si e aos outros e como são vistos sobrepujaria a mornidão da narrativa.

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