“Então, o que é que vai ser, hein?”

4 de abril de 2013
in Category: Lugarzinho, Resenhas
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“Então, o que é que vai ser, hein?”

“Então, o que é que vai ser, hein?”

Laranja mecânica
Anthony Burgess

Muito já se falou sobre Laranja Mecânica – o livro e o filme – mas gostaria de dar meus dois centavos de contribuição e compartilhar minhas impressões sobre o livro. Desde já, aviso que o post não é spoiler-free, pois seria impossível comentar sobre certos aspectos do livro sem dar alguns spoilers.

Obs.: A minha edição é a “Edição Especial 50 anos”, que vem com vários extras bem interessantes. Todas as referências feitas ao livro são relativas a essa edição.

laranja mecanica

Sinopse
Ambientado em um futuro impreciso (mas não distante), Laranja Mecânica é a perturbadora confissão autobiográfica de Alex, líder de uma gangue adolescente que se reúne para cometer perversidades e atos de violência pelas ruas de uma Londres decadente.
Após uma incursão malsucedida, Alex é capturado pela polícia. Na prisão, é submetido a uma experiência de reengenharia social desenvolvida para eliminar tendências criminosas, cuja finalidade é reeducá-lo psicológica e socialmente. Uma experiência extremamente dolorosa e tão desumana quanto a ultraviolência que o próprio Alex costumava praticar.
(fonte: primeira orelha)

O título do livro vem de uma expressão inglesa: “As queer as a clockwork orange” – “Tão bizarro quanto uma laranja mecânica”. Na narrativa, o nome se justifica como sendo o título do livro escrito pelo escritor cuja esposa é estuprada e morta pelos druguis de Alex. Aliás, esse evento reflete uma experiência do autor: em 1944, sua primeira esposa, Lynne, foi estuprada por quatro rapazes. Diz-se que foi esse fato que inspirou Burgess a escrever o livro.

A primeira coisa que chama atenção, sem dúvida, é a linguagem utilizada. A estória é narrada pelo próprio Alex. E ele, como todo e qualquer adolescente em qualquer época, usa uma gíria própria para se comunicar. Toda gíria ou jargão é, ao mesmo tempo, um modo de integração e identificação dos membros de um mesmo grupo e uma maneira de evitar que os “não-membros” não tomem conhecimento do teor das conversas. E Burgess levou essa ideia ao extremo, criando quase um idioma próprio, ou melhor, um dialeto das gangues que ele batizou de nadsat. Conforme a “Nota sobre a nova tradução brasileira”, o termo é uma “transliteração para o idioma russo do sufixo inglês teen (adolescência ou adolescente). Burgess utilizou como base dessa linguagem várias palavras russas, que misturou a palavras em inglês – muitas vezes inglês arcaico.

laranja mecanica - trecho

Se a narração fosse feita em terceira pessoa, o dialeto das gangues seria “experimentado” pelo leitor apenas durante os diálogos. Ao colocar Alex contando sua própria estória, a intenção de Burgess nitidamente foi fazer o leitor submergir no universo do narrador através da linguagem. Essa manipulação do idioma lembra bastante Guimarães Rosa e sua enxurrada de neologismos – quem já leu Grande sertão: veredas vai entender do que estou falando. Pensando em Guimarães, busquei ao máximo captar o significado das palavras a partir do contexto em que estavam inseridas, tentando evitar recorrer ao glossário. A “Nota sobre a nova tradução brasileira” ajudou bastante nesse sentido, mas ainda assim em vários momentos foi inevitável interromper a leitura e ir buscar a “tradução” no final do livro.

Bratchnis graznis – eu disse, tipo assim fungando. Então falei: – Não ligo para a ultraviolência e essa kal toda. Isso eu posso suportar. Mas não é justo para com a música. Não é justo que eu me sinta mal ao sluchar o adorável Ludwig van, G. F. Handel e outros. Tudo isso demonstra que vocês são um bando de escrotos safados, e eu jamais os perdoarei, seus sodomitas. (p.182)
(bratchnis = filhos da puta; graznis – sujos; kal = merda; sluchar = escutar)

Há diversas interpretações sobre vários aspectos do livro. Acredito que não necessariamente Burgess tenha pensado em todos os significados que leitores aficcionados encontraram ao esmiuçar o texto. Contudo, conforme aprendi no “Curso de Teoria, Linguagem e Crítica”, ministrado pelo Pablo Villaça, se uma interpretação encontra respaldo no filme ela é válida, mesmo que o próprio diretor não tenha pensado nisso ao fazer o filme – e acho que o mesmo se aplica aos livros. Uma delas diz respeito ao nome do protagonista – Alex. “Lex”, em latim, significa “lei”. O prefixo “A” serve para negar o termo. Sendo assim, o nome do protagonista já insinua sua índole de contraventor, contra a lei, avesso a ela ou ainda, que ignora a lei. Se o autor pensou nisso ao dar nome ao personagem? Pode ser, como pode não ser. Mas faz todo sentido que assim o seja.

Ilustracao de Angeli para nova edicao do livro Laranja MecanicaOutra percepção possível diz respeito à divisão do livro em capítulos. A estória é dividida em três partes – Alex e seus druguis praticando a ultraviolência, Alex na prisão, Alex depois do tratamento. E cada uma delas é dividida em sete capítulos, ou seja, o livro totaliza vinte e um. É possível que o total de capítulos signifique que ao final deles o protagonista atinge a maioridade e torna-se um homem maduro. E é o que ocorre no último capítulo que, aliás, é motivo de desgosto e descontentamento para boa parte dos leitores. Sem meias palavras, esse capítulo é totalmente brochante. Exceto no período logo após o tratamento, o protagonista passa o tempo todo imerso num mundo em que a violência é tanto um meio quanto um fim. E o último capítulo parece querer fazer desvanecer da mente do leitor toda a violência e todo o questionamento sobre consciência e liberdade de pensamento levantado até então. Do nada, após uma conversa com um antigo membro da gangue, Alex resolve que vai “virar hominho”, deixar essa vida inconsequente de lado, encontrar uma companheira e constituir família. Como assim?! Se realmente os 21 capítulos representarem a passagem de Alex para o “mundo adulto”, o último capítulo possivelmente não ficaria tão deslocado e o leitor não se perguntaria “WTF?!” se essa passagem, ou mudança de postura, se desse gradativamente, talvez nos últimos três ou quatro capítulos. Felizmente, Kubrick ao fazer o filme, tomou como base a edição norte-americana do livro, que não possui o último capítulo. O filme termina de modo muito mais condizente com o restante da estória.

A-clockwork_orangeDifícil falar do livro sem comentar sua adaptação para o cinema. Acredito que o mérito de Kubrick tenha sido conseguir transpôr a estório para a tela da melhor maneira possível, quase da única maneira que se possa imaginar. Salvo algumas licenças criativas tomadas devido à própria mídia, é uma das adaptações de livro mais fiéis que me lembro de ter assistido. Kubrick “adotou” a estória e fez o filme de modo tão autoral que a maior parte do público passou a crer que o roteiro era original e não uma adaptação. Burgess, depois de anos, desgostoso com a situação (assim como com a supressão do último capítulo), escreveu uma versão teatral da própria obra na tentativa de resgatar sua autoria.

Apesar do excesso de violência presente na trama desagradar vários leitores, no meu entender a reflexão mais importante levantada pelo livro é a questão de um governo autoritário, usando como desculpa controlar esse mesmo excesso de violência, suprimir o livre-arbítrio dos cidadãos. Até que ponto é válido interferir com a liberdade de escolha do indivíduo? Até que ponto é justificável tolher essa liberdade em favor de um bem comum, de um bem maior? E essa não-violência incutida, condicionada significa efetivamente uma melhora da humanidade como um todo?

– Ela ainda não foi usada – ele disse, não nesta prisão, 6655321. ‘Ele’ tem dúvidas sérias a respeito. Devo confessar que compartilho dessas dúvidas. A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem. (p.141)

– Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão autocontraditório isso soa. Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si? Questões difíceis e profundas, pequeno 6655321. (p.156)
(os dois trechos são palavras do capelão da penitenciária a Alex)

Merece um Capuccino.
[rating=4]

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1 comment on ““Então, o que é que vai ser, hein?””

  1. Carol Filippelli disse:

    Muito bom!! Adoro este livro.

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