Manual de Bons Modos em Palestras e Cursos

14 de fevereiro de 2013
in Category: Crônicas, Devaneios, Opinião
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Manual de Bons Modos em Palestras e Cursos

Manual de Bons Modos em Palestras e Cursos

Dando prosseguimento ao meu projeto de conquistar fama e fortuna como escritor, tenho participado da maior parte de cursos e workshops literários que me é possível. Quanto mais “treinamentos” tenho feito, mais fortes se tornam dois paradigmas que observo em relação a isto: Primeiro, é grande a quantidade de picaretas que dá “cursos”, vendendo um conhecimento que não têm. E segundo, cada vez mais me parece menos eficiente fazer um curso ao invés de aprender buscando o conhecimento por conta própria nos livros.

Os cursos têm ou podem ter diversos fatores positivos: O networking; Uma forma mais direta de assimilar conhecimento; A possibilidade de debate de ideias; Etc. E, claro, fatores negativos. Tais quais a falta de qualidade do instrutor/palestrante, as falhas da organização do evento, o ambiente desagradável, etc. Dentre eles, porém, o mau comportamento do público é o que me deixa assaz emputecido. Espera-se que – palestrantes e público – façam uso do bom senso. Mas infelizmente, parece que não há um senso comum sobre o que é ter bom senso. Devido a isso, condensei toda minha ira neste folhetim:

Manual de Bons Modos em Palestras e Cursos

Old Classroom

1. Ninguém quer saber a sua opinião: Se você ouviu do palestrante algo que lhe fez lembrar de uma história que aconteceu com você ou com um conhecido, por favor, contenha-se. As pessoas que fazem parte do público (na maioria das vezes, pagantes) estão ali para ouvir apenas o que a criatura lá na frente tem a dizer. Supõe-se que, diferente da sua, a opinião dele é relevante. Então, a menos que o que você tenha a dizer vá realmente acrescentar algo ao conteúdo, respeite o desinteresse dos outros por você e se mantenha calado. Se você precisa definitivamente se expressar por carência ou vaidade, procure um amigo ou algum serviço de teleamigos (lembra dos populares 0900 dos anos noventa? Talvez ainda exista algum.). Ou então faça como eu: Crie um blog.

2. Procure um curso/palestra adequado ao seu nível de conhecimento: Inúmeras vezes, durante as corriqueiras apresentações, onde cada um diz seu nome e o nível de contato com o assunto, vejo pessoas vomitarem currículuns inteiros, com inúmeras experiências fantásticas e profissionais sobre o assunto abordado no curso que é, por acaso, introdutório. Num treinamento de introdução a roteiros de cinema (vou frisar bem: Eu disse INTRODUÇÃO!) me apareceu um senhor dizendo que tinha escrito dezenas de roteiros e que tinha diversos trabalhos já filmados e que, inclusive, aproveitou o ensejo para quebrar a regra número um deste folhetim, relatando sua larga e chata experiência. Querido… Se você é profissional nisso, que raios você está fazendo num curso INTRODUTÓRIO?! Se você esperava outra coisa, se por acaso se enganou, saia. Peça seu dinheiro de volta. Mas não venha bancar o entendido para inibir os que estão lá para ter seu primeiro contato com o assunto. O mais irônico é que, geralmente, esses “profissionais” são aqueles que fazem as perguntas mais estúpidas, desmentindo sua auto-propaganda.

3. Desligue a p%$#@ do celular: IMG_6562 No meio do evento o celular de alguém toca. Tudo bem. Acontece. A gente esquece de desligar. Somos humanos. É bom para lembrar a todos que desliguem os seus. Continua a aula. Toca NOVAMENTE. Reparem, não é outro, é o mesmo que tocou há pouco e que o indivíduo deveria ter desligado ou ao menos deixado no vibra. O cara atende. “Alô? Oi! Não posso falar agora. Tô em curso! Quê? Ahã. Tá em cima da mesa. Quê? Então vê na gaveta. Tá, depois te ligo, tô em curso.”. Pronto. Além de quebrar o ritmo, desconcentrar todo mundo, vamos passar o resto do tempo querendo saber do que ele estava falando.

4. Respeito aos horários: Ok, ok… São Paulo é um inferno em relação ao trânsito e ao transporte público. E no resto do país a coisa não é diferente. Atrasos acontecem. Mas convenhamos que chegar uma hora além do horário marcado é um pouco de exagero. Se houve um imprevisto e você se atrasou, procure não invadir a sala como se tivesse deixado alguém esperando num altar. Aguarde um horário de intervalo ou entre tão silencioso quanto uma sombra. Ou então desista. É provável que você já tenha perdido tanto conteúdo que os vinte minutos restantes de aula não irão mudar sua vida.

5. Perguntar não ofende? A quem faz a pergunta, não. Aos demais pode ofender sim.: Eu sou do tipo impulsivo. Se me surge uma dúvida voraz, eu a solto na hora. Sem levantar a mão, levanto minha voz grave e sexy acima de todos e atiro. Shame on me! Mas faço isso raramente, quando sei que a questão é simples e que não vai tomar tempo demais do palestrante, nem causar uma digressão no assunto. Quando é algo mais complexo, onde sei que vou precisar de tempo pra entender ou mesmo até para formular a pergunta, eu anoto e procuro o palestrante no final do evento. Ou, no mínimo, espero ele abrir para perguntas. Existem vários tipos de perguntadores, por isso este item será subdividido:

5.1. O Perdido: O cara levanta a mão e toma a palavra. Fica soltando uma série de frases aleatórias e, quando termina, o tom de sua oração não tem uma inflexão de dúvida. Foi apenas um palavrório. Você percebe que ele nem sabe qual é a sua dúvida. O que força o palestrante a pedir que ele repita e tudo começa outra vez. Lembre-se: Antes de perguntar, certifique-se de que tem realmente uma pergunta bem definida e objetiva. Não force as pessoas a decifrar a sua dúvida para só então poder formular uma resposta.

5.2. O Debatedor: DebatedoresMais uma vez, sempre se pressupõe que a pessoa que está ministrando a palestra tem um conhecimento mais amplo do assunto do que quem pagou para ouvi-la. Assim, se você fez uma pergunta e não concorda com a resposta da criatura, contenha-se. Não tente contra-argumentar, nem tente provar seus argumentos. Deixe para debater ou bater no palestrante num momento mais oportuno. Lembre sempre da regra 1: Ninguém quer saber a sua opinião!

5.3. O Hippie: Suponha que o cara fumou unzinho e foi pra palestra de física quântica. De repente o palestrante usa como exemplo um átomo de hidrogênio. O ouvinte hippie deixa sua mente entrar num fluxo de consciência, num fractal espiralado de pensamentos… Daí solta uma pergunta: “As flores tem sentimentos?!”. Já vi coisas do tipo. Perguntas que não têm nada a ver com o assunto ou que usam um pequeno ponto tangente podem tirar e ou embaçar o foco, causando uma enorme perda de tempo. Por isso, recomento não consumir bebidas alcoólicas ou drogas alucinógenas antes ou durante o curso/palestra. Faça isso depois. E me chame.

6. Adendo aos palestrantes/ministradores: Inicialmente, partirei do princípio de que você, que se propõe a dar um curso/palestra, é uma pessoa idônea que está disposta a compartilhar com o mundo a sua experiência e, honestamente, receber em troca certo valor monetário condizente com a qualidade de seu material. Ou, ainda que não receba nada, tem ao menos a satisfação e a intenção de tomar o tempo do público para troca de conhecimento útil. E não é um picareta safado que está apenas tomando tempo e dinheiro das pessoas com um papo furado e uma postura arrogante, vendendo um conhecimento que não tem e ou apenas utilizando a boa fé e a boa vontade alheia para alimentar o seu ego e suas vaidades doentias. Assim sendo, saiba meu caro que você tem o poder. Eu sei, eu sei. Eu te entendo. Já passei por isso. Você está lá exposto. Novas ideiasUm monte de olhos sedentos sobre você. Te questionando, te criticando. Pessoas acreditando que, por não estarem mais nos bancos da escola (colégio, ensino fundamental, etc) julgam-se no direito de quebrar todas as regras da relação professor/aluno. É duro. Você está tentando agradar a gregos e troianos, ser compassível tanto com os idiotas quanto com aqueles malditos sabichões que te constragem mostrando que têm mais conhecimento que você. Mas lembre-se: Você tem o poder. O palco é seu. Seja o maestro. Não seja tolerante demais, nem rígido demais. Prepare um roteiro e atenha-se a ele. Se de repente tudo sair do controle, pare. Peça uns minutos e volte ao roteiro.

Ao observar com atenção alguns palestrantes, pude assimilar algumas técnicas úteis para evitar problemas corriqueiros. Mas tratemos disso num próximo post. Por hoje é só. Humpf!

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1 comment on “Manual de Bons Modos em Palestras e Cursos”

  1. Sheila Chaves disse:

    Esses dias recebi um marcador de páginas no metrô e resolvi acessar o site. Muito bom!!! Parabéns pelo trabalho de vcs!!

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