O último lobisomem

Published on: 16 de junho de 2018

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« resenha publicada originalmente no Vortex Cultural, em 06/06/2018 »

O último lobisomem
Glen Duncan

Era uma noite de lua cheia. Não. Não era. Isso é clichê demais e certamente nada tem a ver com o livro. Aliás, a primeira coisa que salta aos olhos é o quanto o autor foge do lugar-comum ao contar a história de um lobisomem, Jake Marlowe, que logo de início fica sabendo ser o último de sua espécie.

lobisomem

Jake vagou pelo mundo durante duzentos anos, à mercê de seus apetites lunáticos e atormentado pela memória de seu primeiro assassinato. Ao saber ser o último, perde a vontade de viver e decide ficar – diferente da música de Raul Seixas – “esperando a morte chegar”. Morte que virá na pessoa de Grainer, um matador de lobsomens profissional.

Indo na contramão dos livros de criaturas fantásticas da moda, em que vampiros são os protagonistas e lobisomens, meros coadjuvantes, presentes apenas para preencher a história com um pouco mais de ação, Duncan coloca Jake como ponto focal da narrativa. E, para evidenciar ainda mais sua importância, “deixa” que ele mesmo conte sua história, através dos diários que escreveu durante toda sua vida. Jake é sarcástico e tem crises existenciais. Sua linguagem reflete a dicotomia entre o lado humano e o animal que aflora a cada lua cheia. Enquanto humano, é um homem inteligente e culto, que discorre sobre moralidade, filosofia, religião e afins. Enquanto animal, apesar da selvageria latente, seu pensamento se torna mais objetivo e claro. Satisfaz sua necessidade por comida e sexo com um planejamento metódico na medida que seus instintos lhe permitem. Diferente do homem, o lobisomem quer viver.

E o autor brinca com essas duas personas e seus linguajares. Nos trechos em que descreve seus momentos como lobisomem, a linguagem é vulgar, muitas vezes chula, repleta de palavrões e descrições cruas, sem rodeios, de sexo e violência. E, principalmente nesses trechos, há algo que muitas vezes faz com que o leitor saia da imersão no universo narrativo: a tradução. Há diversas gírias e expressões cuja tradução soa estranha, como se tivessem sido traduzidas ao pé da letra ou pelo Google Translator.

A trama se arrasta nos dois primeiros terços do livro. O leitor acompanha Jake indo de um lado a outro, bancando James Bond, lutando contra vampiros, fazendo fugas espetaculares. E, entremeado a isso, o leitor vai conhecendo seu passado e de que forma se tornou um lobisomem. Em vários momentos, pensei “Agora vai!”, tendo a impressão – que se provava errônea – de que a história iria deslanchar e que algo relevante iria acontecer. A narrativa apenas ganha corpo, e o protagonista ganha um propósito, quando Tallula surge e passa a fazer parte da vida de Jake.

É uma leitura agradável e divertida, que foge do convencional ao colocar o lobisomem como protagonista e não como coadjuvante. Mas justamente esse fator poderia ter sido melhor aproveitado. Tornando assim, os dois terços iniciais mais interessantes e envolventes.

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