11 de setembro de 2017, 22:58 - Cristine
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O conto da aia

O conto da aia
Margaret Atwood

Escrito em 1985, o livro voltou a ganhar destaque nos últimos meses, alcançando as primeiras posições em listas de mais vendidos em diversos países. A distopia futurista ambientada em um estado teocrático, fundamentalista e totalitário, em que as mulheres perdem seus direitos civis, assumiu um tom profético nesta época de Trumps e Bolsonaros. Além disso, a exibição da série homônima – The handmaid’s tale – produzida pelo canal Hulu, reacendeu o interesse dos leitores pela obra.

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Já tinha ouvido falar do livro, mas o título me deu uma ideia errada. Não imaginava que fosse uma distopia sci-fi. Além disso, a capa reforça essa ideia, faz parecer que a história se passa por volta do século XVIII ou mesmo bem antes, no período feudal.

A exemplo do que Orwell faz em 1984, a autora inicialmente não descreve todo o universo distópico em que se passa a história. Os elementos do novo status quo são apresentados aos poucos, sem muitas explicaçoes, meio que assumindo que o leitor saiba o que são. Marthas, Olhos, Cerimônia, Comandante, Tias, Aias, Guardiões. O leitor demora a conseguir formar um panorama completo da situação, até entender todos esses termos e definições. Além disso, nos primeiros dois terços do livro, não se sabe ao certo como e por que a sociedade chegou àquela conjuntura.

O livro é narrado em primeira pessoa por uma aia cujo nome real não é revelado. Ela é chamada de Offred, um patronímico que se refere ao Comandante a quem ela serve – como Ofglen, Ofwarren, e assim por diante. A narrativa de Offred intercala o momento presente, o período anterior ao tal evento que mudou tudo e o período em que ela esteve “em treinamento” para sua nova função. E o fato de o leitor ter de ir juntando as peças para conseguir entender o todo reflete a condição atual da narradora, que pouco ou quase nada sabe a respeito do que se passa fora da casa do Comandante e dos poucos locais que frequenta, já que foi proibido às mulheres em geral e às serviçais em específico o acesso à informação. Assim como ocorre em Fahrenheit 451, ler se torna uma contravenção – mas apenas para as mulheres.

MargaretAtwood

Margaret Atwood

É juntando pedaços das lembranças de Offred, que se descobre que durante o tal evento, os direitos civis das mulheres foram cerceados. Elas perderam o direito à posse de qualquer coisa, inclusive de seu próprio dinheiro. E que, por algum motivo, as mulheres foram perdendo a capacidade de ter filhos. Numa situação assim, o mais lógico seria concluir que as que ainda conseguiam, seriam tratadas como deusas ou algo similar. Só que não. O que ocorre contraria a lógica. Essas mulheres são subjugadas e obrigadas a servir a casais que não conseguem ter filhos, assim como Bila serviu a Raquel:

1 Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro.
2 Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre?
3 E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela.
4 Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó a possuiu.
(Gênesis 30)

Essa sociedade fundamentalista usa a Bíblia como pilar, tomando seus mandamentos ao pé da letra:

A Cerimônia se desenrola como de hábito.
Deito-me de barriga para cima, completamente vestida, exceto pelos amplos calções de algodão.
(…)
Acima de mim, em direção à cabeceira da cama, Serene Joy está posicionada, estendida. Suas pernas estão abertas, deito-me entre elas, minha cabeça sobre sua barriga, seu osso púbico sob a base de meu crânio, suas coxas uma de cada lado de mim. Ela também está completamente vestida.
Meus braços estão levantados, ela segura minhas mãos, cada uma das minhas numa das dela. Isso deveria significar que somos uma mesma carne, um mesmo ser. O que realmente significa é que ela está no controle do processo e portanto do produto. Se houver algum. Os anéis de sua mão esquerda se enterram em meus dedos. Pode ser ou não vingança.
(p.114)

O que está ocorrendo nesse momento – e que ocorre uma vez por mês, religiosamente – é tão surreal, que Offred não encontra palavras para descrever:

Não digo fazendo amor, porque não é o que ele está fazendo. Copular também seria inadequado porque teria como pressuposto duas pessoas e apenas uma está envolvida. Tampouco estupro descreve o ato: nada está acontecendo aqui que eu não tenha concordado formalmente em fazer. Não favia muita escolha, mas havia alguma, e isso foi o que escolhi.
(p.115)

Os valores foram tão alterados, a moral está tão distorcida que a própria personagem afirma não ser estupro. Contudo, não há consentimento se ela não tinha outra opção viável. Se lhe foi dada a “opção” de se tornar uma parideira ou enfrentar algo pior, possivelmente a morte, ela não teve escolha. É submissão, não consentimento. E essa subversão do bom senso é extremamente incômoda ao leitor. Não apenas pela sua natureza mas também por não parecer algo assim tão impossível de ocorrer.

Não se pode dizer que seja uma leitura agradável, pois a autora arranca o leitor de sua zona de conforto, obrigando-o a refletir sobre liberdade, direitos civis, cultura do estupro, fundamentalismo, violência. Mas não é essa a função da literatura e da arte em geral? Provocar, incomodar, fazer refletir?


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