11 de agosto de 2017, 18:56 - Cristine
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Jogador nº 1, de Ernest Cline

Jogador nº1
Ernest Cline

A história se passa daqui a uns 20 anos. Em um futuro não tão limpo, aprazível e bem organizado como alguns autores de ficção científica do século passado imaginaram. O mundo está mais para a realidade distópica pós-apocalíptica bem ao estilo Mad Max, tomado por guerras, desemprego e fome. A válvula de espape dessa realidade miserável é o OASIS – uma plataforma de realidade virtual global que permite ao usuário ser o que quiser, ou seja, um Second Life que deu certo. As pessoas estudam, trabalham, jogam, viajam, se relacionam dentro do OASIS.
O bilionário recluso, Halliday, criador do OASIS, morre sem deixar herdeiros. Fazendo as vezes de um testamento, ele deixa um vídeo explicando que escondeu um easter-egg dentro do OASIS e quem conseguir achá-lo herdará todos os seus bens. Para chegar ao “ovo”, é necessário encontrar 3 chaves e atravessar 3 portais.
O protagonista é Wade (Parzival, no OASIS), o rapazinho pobre, sem recursos, sem família, mas com muita boa vontade, que encontra a primeira chave 5 anos depois do falecimento de Halliday.

jogador n1

Contada assim, a trama parece um daqueles filmes da Sessão da Tarde em que “uma turminha do barulho vai viver altas aventuras”. E não deixa de ser isso mesmo, principalmente porque o livro todo é uma ode aos anos 80 – o auge dos filmes nesse estilo – já que Halliday era fã de tudo relacionado a essa época. Por conta disso, todas as pistas, dicas, obstáculos referentes à caça ao ovo remetem a ela.

A narrativa não é inovadora. O protagonista segue a jornada do herói e o estilo de escrita de Cline não tem nada de experimental. Mas fica evidente que essa não é a intenção do autor. Como também não é sua intenção questionar as ações que levaram o mundo a estar como está, nem listar vantagens e desvantagens de viver no munto real ou virtual, nem questionar o domínio e o alcance das grandes corporações, nem mesmo explorar a complexidade (ou não) dos relacionamentos interpessoais dos personagens. Porém, mesmo não discutindo essas questões no texto, o leitor é levado a parar e pensar sobre elas.

Nitidamente, o foco do livro é outro. Tem um público-alvo muito específico, o que não quer dizer que seja pequeno: nerds e geeks em geral, gamers, cinéfilos, mas especialmente quem passou infância e adolescência nos anos 80. O livro de Cline não é um daqueles com algumas referências usadas para agregar valor à narrativa. O texto é um acumulado de referências a filmes, séries de tv, games e até músicas da época. Uma viagem no tempo sem a Tardis. É esse o grande atrativo e a grande diversão. E, por conseguinte, o grande trunfo de Cline. Ultraman é citado, e a gente logo lembra de quando assistiu e qual era o episódio predileto. Comentam sobre War games, e pensamos como foi a primeira vez que assistimos ao filme. Citam uma música do Oingo Boingo e ela fica grudada na cabeça, tocando em loop. Falam de Pac-man e nos lembramos de quantas horas passamos jogando. Com o leitor sendo bombardeado de referências e, por que não dizer, lembranças a cada frase, o envolvimento com a história é praticamente inevitável. O leitor fica imerso no universo do livro assim como os personagens estão imersos no OASIS.

ernest-cline

O autor.
Sim, Cline é um nerd de carteirinha. E, sim, ele é dono de um DeLorean.

Nâo é um livro para todos os leitores. Mas seria ingenuidade afirmar que aqueles que não fazem parte do público-alvo também irão curtir e se deliciar com a obra, porque não vão – há sempre exceções, lógico. Mesmo para o leitor “iniciado”, algumas pistas passam batido simplesmente por não se conhecer a referência. E, para o leitor não-americano, há a dificuldade de não ter tido acesso a alguma série de tv ou game que tenha ficado restrito aos EUA.

Nas mãos de um autor um pouco mais experiente – este é o primeiro livro de Cline – algumas falhas estruturais provavelmente seriam sanadas. Pelo estilo da narrativa, a linguagem utilizada, a faixa etária dos personagens principais, a jornada pouco complexa, infere-se que é um livro infanto-juvenil. No entanto, o público infanto-juvenil não tem a bagagem cultural necessária, ou seja, a vivência dos anos 80, para desfrutar da viagem adequadamente. E o público adulto, que tem essa bagagem, talvez ache as soluções narrativas um tanto preguiçosas em alguns momentos – coincidências demais atrapalham. Por exemplo, Wade precisa de um item específico em uma fase do game? O item está em seu inventário e a explicação é que ele o ganhou outro dia ao derrotar um dragão. Wade está com o inventário vazio e precisa ir a um lugar alto, sem acesso? Um de seus amigos possui um par de botas propulsoras, lógico! E assim em sucessivas situações. Se o leitor abstrair isso, a diversão é garantida.

Se há um ponto negativo e que, em muitos momentos, atrapalha a fluidez da leitura é a tradução. O leitor é um nerd/geek que sabe o que é uma sidequest, um MMORPG e obviamente sabe que o terceiro filme de Star Wars é O retorno do Jedi. Desnecessário ficar explicando ou, pior, traduzindo literalmente. Percebe-se que quem traduziu entende pouco ou quase nada do mundo geek/nerd. E, sendo esse o caso, a editora deveria ter passado a revisão da tradução para alguém que entende . Aliás, a revisão também deixa muito a desejar. Há coisas do tipo “navios” em vez de “naves”, espaços faltando entre palavras, erros de ortografia, sem contar um imperdoável “fortaleza impregnável”.

Para quem faz parte do público-alvo e quer ler o livro antes do lançamento do filme, é uma ótima pedida. Os demais, podem experimentar e, quem sabe, curtir também.

Vale um Capuccino
4 Stars

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Trailer do filme:


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