27 de fevereiro de 2017, 18:41 - Cristine
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Repeteco

Repeteco
Bryan Lee O’Malley

“A vida de Katie vai muito bem. Ela é uma chef talentosa, dona de um restaurante de sucesso e com grandes planos para a vida. De repente, em um único dia ela perde uma grande chance de negócios, sua paquera com um jovem chef azeda, sua melhor garçonete se machuca e um ex-namorado charmoso aparece para complicar ainda mais a situação. Quando tudo parece perdido e Katie já não enxerga mais uma solução, uma misteriosa garota aparece no meio da noite com a receita perfeita para uma segunda chance. E assim, Katie ganha um repeteco na vida e precisará lidar com as consequências de suas melhores intenções.”
(fonte: 4ª capa do livro)

Eu já havia comprado o box de Scott Pilgrim quando surgiu a oportunidade de solicitar Repeteco para a Companhia das Letras. Resolvi ler ao menos o primeiro volume, para ter uma referência do estilo do autor. Talvez eu não estivesse num dia bom, talvez a abordagem YA fosse YA demais para mim, talvez a tradução tenha me incomodado. Mas eu não gostei tanto quanto eu achava que gostaria, ou tanto quanto eu queria ter gostado. Então comecei a ler Repeteco. E logo de cara, a epígrafe me ganhou. Citar Ítalo Calvino foi um ótimo prenúncio. E, principalmente, citar um trecho de um livro dele que eu gosto demais me fez encarar a HQ com outros olhos.

repeteco-epigrafeAo ler a sinopse, é difícil não pensar em alguns filmes cuja temática envolve a “repetição” do tempo. Apesar de o primeiro pensamento ser para Groundhog Day (Dia da marmota) – em que o mesmo dia se repete para o protagonista, Phil (Bill Murray) – a trama tem muito mais a ver com Run Lola Run (Corra Lola, corra) – em que vemos a protagonista vivenciando a mesma situação trê vezes e cada uma delas de forma ligeiramente diferente – e principalmente com The Butterfly effect (Efeito Borboleta). Neste último, o protagonista, Evan (Ashton Kutcher), descobre uma forma de voltar ao passado e consertar certos erros. O mesmo acontece com Katie. E, a cada vez que acontece um repeteco, não só aquilo que ela queria ajustar sofre alteração. Há inúmeros outros desdobramentos, alguns deles indesejados. Tudo a ver com o efeito borboleta proposto por Edward Lorenz, em que o bater de asas de uma borboleta aqui pode causar um tufão do outro lado do mundo. A cada repeteco, a protagonista muda pequenos detalhes que se desdobram numa escala que ela sequer teria conseguido imaginar.

Bem en passant, a narrativa aborda uma explicação de “como” acontecem os repetecos. Nitidamente não é o foco da história explorar isso. Mas é interessante perceber que a trama adota a ideia da existência de várias linhas temporais possíveis. Sendo assim, a cada vez que Katie usava seu truque para voltar no tempo, ela, na verdade, estava pulando de uma linha temporal para outra e, por conseguinte, se afastando cada vez mais da linha “original”. E como fazer para voltar ao início?

Vale reparar que a trama tem não apenas uma protagonista forte, mas três personagens femininas centrais fortes – Katie, Lis (o espírito da casa) e Hazel (garçonete do restaurante que se torna amiga de Katie). É Girl Power total. Katie talvez não agrade alguns leitores. Ela é uma ótima chef de cozinha, mas não se pode dizer que seja uma boa pessoa. Ela tem um sonho e o persegue custe o que custar (ou quase). Mas se isso significar ferir sentimentos alheios, ela se arrepende e logo tenta consertar tudo da maneira mais simples: fazendo um repeteco. Suas motivações, por vezes, são superficiais. Mas mesmo assim, o autor consegue fazer com que o leitor se importe com o destino dela.

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Diferente de Scott Pilgrim, a edição é colorida. E isso é um grande trunfo. A paleta de cores é o complemento perfeito para a narrativa. É interessante notar como o cabelo ruivo de Katie sempre se destaca, direcionamento o olhar do leitor para ela, mesmo quando ela não é o foco da ação no momento.

A tradução, principalmente do título, causou certo desconforto – em alguns casos, revolta – em quem já tinha lido o original. Mas as explicações do tradutor (veja no final do post) se justificam bem.

Enfim, o tema não é exatamente original, a protagonista não é das mais altruístas, mas a história cativa bem. Sobretudo por fazer o leitor parar e pensar na possibilidade e na existência de segundas chances. Por fazê-lo refletir sobre a inevitabilidade do avanço do tempo e ter ciência de que escolhas, por menores que sejam, podem ter grandes consequências.

Vale um Capuccino
4 Stars

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O tradutor, Érico Assis, comentou sobre o processo de tradução no Blog da Companhia (leia aqui) e no Facebook:

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