5 de setembro de 2015, 19:19 - Cristine
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Pretérito imperfeito, de Gustavo Araújo

Pretérito imperfeito
Gustavo Araújo

A partir da publicação de um conto seu – “A menina na floresta” – na comunidade “Contos fantásticos” do falecido Orkut em 2009, o autor começou a cultivar a ideia de desenvolver a história do conto em forma de romance.

Em entrevista à jornalista Thaís Lemes Pereira, publicada no blog da Caligo Editora, o autor deu uma breve ideia da evolução do conto ao romance:

A linha argumentativa principal permaneceu a mesma: um menino e uma menina que inadvertidamente se encontram em um bosque e que acabam se apaixonando. No entanto, por se tratar de uma história maior, um romance, outros elementos foram inseridos, de modo a tornar a narrativa toda mais rica e os personagens mais profundos.

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A história se passa, na maior parte do tempo, na cidade fictícia de Porto Esperança e foca em três personagens: Toninho – um garoto de treze anos, que sofre bullying na escola por sua dificuldade de leitura, e prefere passar seu tempo observando pássaros num bosque nos arredores de sua casa; Cecília – uma adolescente que adora ler e escrever, impedida de sair de casa devido ã situação misteriosa (para ela) em que seu pai se encontra; e Pedro Vieira, pai de Toninho – um homem pouco expansivo, com um passado conturbado.

Parte da história acontece nos anos 30, na era Vargas, e parte dela em meados dos anos 60, pós golpe militar. Períodos intranquilos da História, usados como pano de fundo do romance. Enquanto que a situação do país durante a era Vargas é retratada explicitamente, descrevendo as atividades do (então) Sgto.Vieira; a dos anos 60 é apenas entrevista, o contexto histórico fica em segundo plano – literalmente.

Enquanto a história de Pedro e Toninho é narrada em terceira pessoa, a linha narrativa de Cecília é epistolar – com cartas que a personagem escreve a uma amiga chamada Carol. O leitor acompanha alternadamente as três linhas narrativas, aguardando o momento em que irão se encontrar. E o livro trata disso: de encontros. Encontrar pessoas que nos entendam. Encontrar sonhos que alimentem a alma. Encontrar a si mesmo para, então, encontrar o mundo.

Há dois elementos na obra, que não chegam a desaboná-la, mas que causam um certo incômodo, e que, acredito, poderiam ter sido melhor trabalhados a fim de evitar isso. O primeiro deles é a linha narrativa de Cecília. Vejam, eu a-do-ro narrativas epistolares, mas esta simplesmente não funcionou comigo. Pelo simples motivo de ser implausível, de soar totalmente inverossímil.

“Todos estavam exaltados e ante minha entrada calaram-se imediatamente. Pude ver que um dos sujeitos, o que era o mais baixo, aliás pouca coisa maior que eu, ficou visivelmente contrariado com a minha interrupção.”
(pos.368)

“Por vezes me pergunto se a chave da felicidade não reside na ignorância. Sei que você não compreendeu, até porque há tempos que não escrevo, mas vou tentar explicar.”
(pos.908)

Adolescente alguma, do alto de seus treze anos, escreve dessa forma. Por mais culta e bem educada que seja. Não importa se ela é uma garota que lê muito e que escreve. E, mesmo nos anos 30/anos 60, crianças não eram formais e nem faziam uso de um vocabulário mais rebuscado, mesmo que fosse em uma carta. Aliás, sobre a forma de falar infantil, basta recorrer a Monteiro Lobato e ler Reinações de Narizinho ou Caçadas de Pedrinho para perceber que, mesmo tendo sido escritos e publicados nos idos de 1930, crianças/adolescentes falam como crianças e não como adultos em miniatura. Isso sempre me “tirava” da história. Até mesmo o conto que a garota escreve para Toninho, não soa como sendo de uma adolescente. Há uma maturidade ali, tanto na forma da escrita quanto no teor da história, que não são condizentes com a experiência de vida de alguém com apenas 13 anos de idade.

Em contrapartida, os capítulos dedicados a Toninho e Pedro são bastante envolventes e a leitura é muito fluida. Os personagens são bem construídos e desenvolvidos de forma a criar empatia com o leitor. É interessante a forma como o leitor vai descobrindo aos poucos o passado de Vieira, quase da mesma forma que ocorre a Toninho, que descobre uma faceta do pai que ele desconhecia.

A segunda ressalva refere-se ao tom de realismo fantástico que aparece apenas no último terço do livro. Não que realismo fantástico seja algo ruim, muito ao contrário. O problema é que até esse ponto, o livro vinha muito “pé no chão”, sem dar brecha alguma para algum elemento fora do real. Diferente de O oceano no fim do caminho, em que o leitor vai sendo preparado e conduzido por Gaiman até trespassar muito sutilmente a linha entre real e fantasia. N’O oceano no fim do caminho, desde o início a narrativa tem um pezinho no fantástico, assim quando ocorre o “mergulho” o leitor já está imerso no universo fantasioso e não há um questionamento racional a respeito. Comra-se a ideia sem mais delongas. Neste, não há preparação e, se houve, ficou tão subjacente, tão nas entrelinhas que quando o elemento fantástico aparece causa aquele efeito “Hein?! De onde veio isso?” e deixa o leitor com a sensação de ter pulado algum trecho importante em que isso talvez tenha sido abordados en passant. Algumas pontas soltas da história se conectam graças a esse elemento fantástico, reforçando a impressão de ser um deus ex machina. Ficaria mais claro se eu entrasse em mais detalhes, mas não pretendo dar spoilers.

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Gustavo Araújo
(fonte: entrecontos.com)

Interessante notar que o autor se utilizada das cartas de Cecília para embutir pensamentos seus sobre escrita e leitura:

“Não há bom escritor que não seja um leitor voraz.”
(pos.1364)

“Experimente pegar um livro que você leu há muitos anos. Leia as primeiras linhas e perceba como você volta no tempo, àqueles dias vividos enquanto você teve o livro em suas mãos pela primeira vez. É mesmo uma relação muito íntima.”
(pos.3748)

 
 
Conheça mais sobre o autor acessando o Entre Contos: site | Facebook

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2 comentários

  • Queria aqui agradecer publicamente a resenha da Cristine. Este é um dos poucos blogues verdadeiramente literários, que não mercantiliza o que produz.

    No que diz respeito às suas observações sobre o enredo, eu gostaria de fazer alguns apontamentos. Vou contra minha natureza nesse aspecto, pois creio que um texto deve se defender por si. Mas o fato é que sempre que escrevemos, temos em mente o “leitor ideal” e, talvez, apenas talvez, os pontos destacados não tenham sido absorvidos a contento por uma ausência maior de proximidade com o contexto literário subjacente.

    Refiro-me inicialmente à suposta maturidade excessiva de Cecília. Tenho que discordar da análise porque tive acesso a anotações de garotas que viveram nesse período e percebi que muitas delas soavam exatamente da maneira como fiz transparecer no livro. Monteiro Lobato, sozinho, não me serviria de fonte, até porque a realidade em que Cecília vivia não permitia a ela ser como uma criança normal, infantilizada. Tive que buscar outros modelos para construir sua personalidade forte e, nesse ponto, se é para citarmos alguém famoso, trago à lembrança a menina Anne Frank que, mesmo aos treze anos (a idade de Cecília) escrevia “como gente grande”. Sugiro a leitura do famoso Diário para que sejam tiradas quaisquer dúvidas.

    O outro ponto, sobre o realismo fantástico aparecer somente no fim, também discordo. As pistas estão espalhadas na narrativa desde o princípio. O que é o uirapuru, senão o símbolo que une as realidades em que a história acontece? Não seria ele uma metáfora fantástica (no sentido de fantasia) trazendo à mente as realidades de Cecília e Mariana?

    Enfim, não queria que soasse como desculpas e tampouco espero que a conclusão que se fez a respeito do livro seja alterada por conta dessas explicações, mas, de forma a defender o contexto dos personagens, eu não podia me furtar à explicação.

    O esmero que tive na criação de Pedro e Toninho — cuja análise foi favorável — não foi maior ou menor do que aquele empregado na construção de Cecília e Mariana. Por isso, não consigo deixar de manifestar a esse respeito.

    De todo modo, quero reforçar aqui que gostei muito da resenha de modo geral. E que agradeço sobremaneira à Cafeína por oferecer seu tempo e espaço para falar de obras pouco divulgadas, como o “Pretérito Imperfeito”. Isso é realmente fantástico. E, tenho certeza, uma constatação unânime.

    Obrigado!

    • Cristine

      Olá Gustavo
      Obrigada por nos prestigiar. De forma alguma soou como desculpa. Aliás é sempre bom ouvir a motivação do autor ao escrever, pois nem sempre (como neste caso) corresponde à percepção que o leitor tem da obra.
      Estamos sempre abertos a receber, para ler e resenhar, obras pouco divulgadas. E devo admitir, não sem pesar, que são poucas as que chegam às nossas mãos com a qualidade e o esmero na escrita que tem o seu texto.
      Que venham os próximos 🙂

      Abraços e boas leituras!

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