Afinal, Harry Potter é literatura?

5 de maio de 2015
in Category: Além do livro, Opinião
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Afinal, Harry Potter é literatura?

Afinal, Harry Potter é literatura?

Segundo Ruth Rocha, não. emoji

A autora, com mais de 120 livros infantis publicados, em entrevista ao portal iG há uma semana (27/04/2015), afirmou categoricamente:

“Não acho errado ‘Harry Potter’ fazer sucesso, mas não acho que seja literatura.”

Como assim?!

Há algum tempo, escrevi sobre uma declaração que Paulo Coelho fez a respeito de Ulisses, de James Joyce (leia aqui). Não faz diferença a opinião dele ou de outra pessoa sobre a obra, se gostou ou não gostou é algo pessoal. O que incomodou na declaração dele, entre outras coisas, foi o subtexto do tipo “não li e não gostei”. Se foi por autopromoção ou não, é difícil entender que um escritor – por mais raso que seja o que ele escreve – emita uma “não-opinião” feito essa.

Não é por gostar de Harry Potter que eu estou me pronunciando a respeito. Não li Ulisses – na verdade, já comecei três vezes – e ainda assim me senti compelida a contestar as afirmações feitas por PC. E, por mais rasos e clichês que sejam os textos dele – que me desculpem seus fãs -, eles são literatura. Não necessariamente excelente literatura mas, ainda assim, literatura. E, mesmo não gostando, não é por isso que sairei falando por aí que não é literatura.

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O GLOBO (EXCLUSIVO) SÃO PAULO 02.06.2009 – PROSA E VERSO – RUTH ROCHA FOTO:SERGIO BARZAGHI/DIARIO

Voltemos a Ruth Rocha. É isso que ela parece estar dando a entender com suas declarações: que leu, não gostou e que por isso não é literatura. Em certo ponto, inclusive afirma “eu sei que não é bom.”

“Isto não é literatura, isto é uma bobagem. É moda, vai passar. Criança deve ler tudo, o que tem vontade, o que gosta, mas eu sei que não é bom.”

E continua:

“O que eu acho que é literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova. Esta literatura com bruxas é artificial, para seguir o modismo. Acho que o Harry Potter fez sucesso e está todo mundo indo atrás.”

Percebam o quanto essas frases soam contraditórias. Ao mesmo tempo em que a autora afirma que ‘criança deve ler de tudo’, cria uma barreira a uma parte desse tudo, já que pela sua lógica Harry Potter não deve ser lido pois não é literatura.

E mais contraditória ainda é sua resposta quanto a não gostar de Harry Potter:

“Não acho errado os livros fazerem sucesso. Eu gosto porque acho que as crianças leem, mas eu não gosto de ler “Harry Potter”, não acho que é literatura.”

E aí, gosta ou não gosta? Criança pode ler tudo, mas não deve ler Harry Potter? Mas, afinal, Harry Potter é ou não é literatura?

Comecemos pela definição de literatura feita pela própria autora:

“Literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova.”

  • Harry Potter é uma expressão do autor?
  • Harry Potter é uma expressão da alma do autor?
  • Harry Potter é uma expressão das crenças do autor?
  • No caso de J.K.Rowling, basta assistir a qualquer entrevista com a autora para saber que a resposta a essas três perguntas é “Sim!”.

  • Harry Potter cria uma coisa nova?
  • Por mais que a história do bruxinho pareça familiar, por mais que seja impossível escapar da jornada do herói, não há dúvida que a forma de contar a história e a concepção do universo de Hogwarts são uma coisa nova. “Sim” também para essa questão.

    Então, pela própria definição de Ruth Rocha, Harry Potter é, sim, literatura.

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E podemos confirmar isso não apenas tomando como base suas declarações. O conceito de Literatura já foi descrito e discutido por vários estudiosos. Vejamos o que escreve Massaud Moisés, professor titular da Universidade de São Paulo, autor de vários livros sobre Teoria Literária:

“A literatura é a expressão de conteúdos da ficção ou da imaginação por meio de palavras de sentido múltiplo e pessoal.

Vale lembrar que para ser um texto literário, deve-se preencher alguns requisitos: a questão de valor já é outra história. Desde um soneto comum escrito por um adolescente sonhador, publicado num jornal acadêmico, até a Divina Comédia, tudo é Literatura. Pode ser que o soneto necessite de valor artístico ou de qualidade, mas irá satisfazer aquelas condições implícitas ou explícitas nas considerações feitas até agora.

(…) podemos concluir que somente a poesia, o conto, a novela e o romance pertencem à Literatura, por satisfazerem àquele requisito básico: Literatura é ficção expressa por palavras polivalentes.”
MOISES, Massaud. A análise literária. 17.ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2005

Então, a menos que eu esteja redondamente equivocada, Harry Potter encaixa-se perfeitamente no conceito de Literatura descrito acima. Além de tudo, literatura é arte. E arte não é algo estanque, imutável, binário, é ou não é. A arte transborda, trespassa, sensibiliza.

Eu poderia dar muitas outras referências e outros exemplos e todos desmentiriam a afirmação inicial de Ruth Rocha. E ela poderia simplesmente ter dado sua opinião, afinal gosto não se discute. Poderia inclusive ter exposto argumentos baseados em teoria literária que (talvez) demonstrassem que Harry Potter não é tão boa literatura quanto a maioria dos leitores considera.

É possível que ela tenha se referido ao embate antigo entre literatura de entretenimento e literatura “de verdade” e que, no seu entender, Harry Potter não se encaixa na segunda classificação. Mas existe mesmo essa distinção? Muitas obras hoje consideradas clássicos, foram literatura de entretenimento na época em que foram inicialmente publicadas. Shakespeare, por exemplo. Será que Ruth Rocha diria que Shakespeare não é literatura “de verdade”? Bom, mas isso é assunto para outro post.

Enfim, a autora de inúmeros livros que embalaram tardes de leitura durante minha infância pisou na bola. #xatiada

ruth-rocha-livros

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13 comments on “Afinal, Harry Potter é literatura?”

  1. Alessandro disse:

    Eu gosto muito dos livros da Ruth Rocha, mas discordo completamente dela nessa questão.

    1. Não é ela quem decide o que é literatura e o que não é. Nem a ABL tem esse prerrogativa, imagina uma pessoa comum, mesmo escritora.

    2. Ela está julgando literatura infantojuvenil como se fosse Literatura Adulta (no sentido de voltada para público adulto, não necessariamente erótica), desde a Idade Média as histórias voltadas pra crianças são cheias de bruxas, vampiros e magia. Se dura desde a Idade Média, como é modismo?

    3. Nem todo livro aceito como Literário é “expressão do autor, da sua alma, das suas crenças”. Edgar Alan Poe fala sobre isso em A Filosofia da Composição, onde ele narra como escreveu o poema “O Corvo” e explica que é um trabalho mais reflexivo que indutivo e que não é um retrato da alma dele, como quem lesse poderia imaginar, é fruto de pesquisas e muita reflexão, quase como se estivesse fazendo um projeto de lógica-matemática.

    Alessandro
    http://www.rascunhocomcafe.com/2015/05/um-sonho-no-caroco-de-abacate-vida-alem.html

    1. Cristine disse:

      Olá Alessandro

      Obrigada pela visita.
      Concordo também com seus argumentos. Afinal, os meus não são os únicos válidos. Infelizmente, todos eles são contra o posicionamento de uma autora cujos livros fizeram parte da minha educação literária. Ótima sua referência a Poe, não me lembrei desse texto dele ao escrever o post. Obrigada pela contribuição.

      Abraços e boas leituras!

  2. Olá! Fiquei triste com esta declaração da autora. Estudei muito sobre ela e li muitos livros dela sozinha e com meus alunos. Não deixarei de ler, mas tal atitude me entristece. Fiz um post lá no blog e creio que concordamos em muitos pontos. quando você questiona Shakespeare eu questiono Os contos de fada, por exemplo.

    Parabéns pelo texto e pela discussão que propôs aqui. Deixarei o link do meu post caso queria conferir.

    http://goo.gl/QUcLpC

    Um abraço!

    1. Cristine disse:

      Olá Vanessa,

      Obrigada pela visita.
      Tive a mesma sensação que vc, ao me sentir decepcionada por uma autora que tanto prezamos.
      Concordo com seu ponto sobre a literatura não ter de ser obrigatoriamente “educativa”. E, não sendo, não deixa de ser literatura.

      Abraços e boas leituras!

  3. Isa disse:

    Ótima argumentação! Desbancou totalmente o que ela disse, parabéns pelo post. 🙂

    1. Cristine disse:

      Olá Isa,
      Obrigada pela visita.

      Abraços e boas leituras!

  4. É lamentável a colocação de uma autora renomada de literatura infantil, principalmente como ela, fazer esta triste classificação. Eu vejo estas leituras com “bons olhos”… não condeno em nenhum momento… acredito que todo livro que incentive alguém a ler de uma certa forma, deve ser respeitado. Já imaginou se a Literatura Brasileira fosse só Machado de Assis e Clarice Lispector? Estaríamos condenados e tolidos e não iríamos ter lido obras de outros grandes mestres como Guimarães Rosa, Jorge Amado e outros. Para mim, quem critica estes tipos de livros, há duas explicações: 1 não gosta de ler; 2 irei usar a colocação “ingênua” de alguns amigos: é recalque!

    1. Cristine disse:

      Olá Elder

      Obrigada pela visita.
      Realmente é lamentável que qualquer pessoa faça uma declaração dessas, principalmente sendo uma autora reconhecida e admirada por tantos livros. Concordo com vc pois, como diziam nossos avós “que seria do azul se todos gostassem do verde?”. Há espaço para todos e toda leitura é válida. Em um país em que a média anual é de 4 livros lidos por habitante, ler – independente do quê – já é uma conquista.

      Abraços e boas leituras!

  5. Aline T.K.M. disse:

    Mandou muito bem com esse texto. É esquisito e chega a ser engraçado como a autora se contradiz em suas explicações. É fato que gosto não se discute; acho que o que deve acontecer com vários autores que afirmam que Harry Potter não seja literatura (ou literatura “boa”) é que talvez não lhes agrade o fato de que, de repente, um livro de estreia alcance tamanho sucesso e seja considerado divisor de águas na literatura infantojuvenil como foi com Harry Potter. Enquanto outros livros e autores infantojuvenis tão bons quanto não chegam a alcançar nem uma parcela disso tudo, embora possam ser consagrados e influenciar uma ou várias gerações. E acho que isso não quer dizer que um seja melhor que o outro, acho apenas que é questão de timing, de sorte também (sabe aquilo de encontrar a pessoa certa na hora certa), e de uma visão comercial da coisa toda, do público.
    Enfim, Harry Potter está aí, seus fãs são numerosos mundo afora e guardam a série no coração. Acho que isso já basta e torna desnecessária qualquer discussão sobre se é ou não é literatura.

    Beijinhos, Livro Lab

    1. Cristine disse:

      Olá Aline,
      Obrigada pela visita 🙂
      Concordo 100% com suas colocações. Talvez a birra das pessoas com livros como Harry Potter tenha algo a ver com aquele conceito esdrúxulo de que “se faz sucesso demais, não deve ter qualidade”. Como se o fato de agradar muita gente desabonasse a obra, o que é uma tolice.

      Abraços e boas leituras!

  6. Pamela disse:

    Cris sei que essa postagem ja é antiga mas meu professor de portugues pediu para fazermos um artigo de opiniao e eu queria saber se posso citar o nome do site e seu nome nele!
    beijinhoos *_*

    1. Cristine disse:

      Olá Pamela,
      Lógico que pode!
      Ficamos satisfeitos por poder colaborar e lisonjeados ao ser citados 🙂
      Agradecemos sua visita, volte sempre.

      Abraços e boas leituras!

  7. benjamim disse:

    sou fa de harry potter pra mim nao importa do mesmo geito sou idolo entao fds

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