Inferno

Published on: 19 de julho de 2013

Filled Under: Resenhas

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Inferno
Dan Brown

Não tinha intenção de ler Inferno. Já havia lido, ouvido, assistido resenhas a respeito e, mesmo naquelas que elogiavam desbragadamente o livro, pude perceber que seria como reler Anjos e demônios ou O código Da Vinci ambientados em outras cidades. E minha desconfiança se confirmou. Exceto pela ambientação e pelo cerne do mistério, é tudo “mais do mesmo”. A estrutura é a mesma: homem ligeiramente deslocado do seu meio encontra mulher com habilidades intelectuais acima da média a fim de solucionar um problema.

inferno

Não nego o mérito da obra como entretenimento. A “fórmula” usada por Brown é bastante eficiente nesse quesito. Para uma leitura rápida, descompromissada – na fila do banco, na sala de espera do médico, durante uma viagem de ônibus – é um texto que prende a atenção sem demandar profundas reflexões. Aliás, pensar ao ler o livro é quase desnecessário, de tão mastigado que é o texto. E isso me desagrada demais durante a leitura. No meu entender, o autor tem obrigação de tratar o leitor como um ser pensante, totalmente capaz de ler nas entrelinhas, sem que necessariamente tudo seja explicitado.

Pergunto-me se, por acaso, as secretarias de Turismo das cidades visitadas – Florença, Veneza e Istambul, mas Falorença principalmente – não financiaram parte da escrita do livro. Pois o teor de guia turístico em alguns trechos é tão eficiente que dá muita, muita vontade mesmo de viajar e conhecê-las. Do mesmo modo, para quem não conhece a obra de Dante, há literalmente uma aula sobre A Divina Comédia que a deixa bem mais atraente para leitores iniciantes. E as duas estrelinhas que dei se devem justamente a esses dois fatores.

Os demais trechos “de enciclopédia” responsáveis pela explicação das atitudes do vilão são entediantes demais e é por isso que muitas pessoas reclamam que a leitura vai bem na primeira metade do livro, decaindo quando os mistérios vão sendo revelados. Quem não tem interesse por genética aplicada ou teorias populacionais sem dúvida sentirá um impulso quase inevitável de saltar alguns parágrafos. Admito, pulei vários trechos por puro tédio em ler todo aquele blá-blá-blá.

il-duono

Il Duomo (Florença)

Dois exemplos, entre vários, que justificam meu desagrado:
(pode haver mini-spoilers, mas nada que estrague a “surpresa” durante a leitura)

1. O vilão da estória solicita a uma equipe a distribuição mundial de um vídeo numa data X. O membro da equipe responsável pela divulgação assiste ao vídeo, na véspera da data marcada. É natural que o conteúdo do vídeo seja todo descrito nesse momento, o que realmente ocorre. O problema é que, toda vez que o vídeo é exibido para alguma pessoa, TODO o conteúdo é descrito novamente – com ligeiras variações. Algo totalmente desnecessário. Irritante, até. Eu já não aguentava mais ler a descrição das cenas, pulei todos os trechos a partir da terceira vez que isso aconteceu. O leitor não sofre de amnésia para fatos recentes. Ele com certeza vai conseguir se lembrar do que o vídeo contém. Se é necessário que algum personagem reaja de maneira específica a algum momento do vídeo, bastaria citar a cena em questão e seguir com a narrativa.

2. Em certo momento, há o flashback de um personagem que, devido à forma como é introduzido parece ser de outro. Até aí, tudo bem. O problema ocorre quando o autor revela ao leitor o verdadeiro “dono” daquelas lembranças: ele repete a cena inteira, num Ctrl+C / Ctrl+V muito descarado. Quando isso aconteceu, por eu estar lendo no Kindle, achei que tivesse apertado algum botão indevidamente e feito o cursor de leitura voltar três ou quatro capítulos. Contudo, aproveitando-me do fato de estar usando o Kindle, fiz uma busca e… bingo! O texto era igual ao anterior, com alterações mínimas que , desta vez, identificavam o personagem. PQP! Precisava repetir tudo? Qual a necessidade ou justificativa para quase três páginas de texto idênticas? No meu entender, é chamar o leitor de burro: “Olha, eu sei que já contei isso, mas vou repetir porque tenho certeza de que você, leitor, já esqueceu tudo.”

vasari

Vasari, “A Batalha de Marciano”
Palácio Vecchio

Além dessas, há outras circunstâncias em que, além de repetir algo à exaustão, o autor ainda faz uso de clichês que poderiam ter sido evitados. Logo no início do livro, parei de contar na décima vez em que Langdon sente “dores de cebeça lancinantes / insuportáveis / latejantes” (ou algo similar). E não tive paciência em contar quantas vezes o mesmo Langdon foi “engolido pela escuridão”.

Esses são problemas que fazem o leitor sair da estória, mesmo que não perceba exatamente o que fez cessar a imersão e interromper a leitura, mesmo que apenas por alguns instantes. Some-se a isso a prosa insípida de Brown e a pouca complexidade dos personagens que, em momento algum, despertam no leitor uma preocupação séria sobre seu destino.

Quem quiser saber um pouco mais da simbologia da obra de Dante e conhecer um pouco mais das cidades em que a ação é ambientada, ou mesmo, quem não se importar em ler um livro com ação ininterrupta, inúmeras reviravoltas, entremeada com trechos da Wikipedia, vá em frente e leia. Quem se importa (assim como eu), mas quer ler para poder comentar a respeito com conhecimento de causa (assim como eu), muna-se de bastante paciência, não se dê ao trabalho de marcar os trechos irritantes e/ou entediantes – serão muitos – e não se envergonhe de saltar parágrafos.

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2 Responses to Inferno

  1. Eric Musashi disse:

    De Brown, li apenas O Código da Vinci, mas ele já padecia desse mal de ser bom na primeira metade, e entediante na segunda, justamente quando a obra devia decolar.

    Aliás, é um mal que vejo na literatura atual, como também no cinema. Estariam os editores/estúdios valorizando obras sobretudo pela capacidade de prender no começo?

    • Cristine disse:

      Olá Eric

      Parece que uma das tendências atuais, tanto no cinema quanto na literatura, é essa que vc comenta. E, infelizmente, vem acompanhada de outra que também incomoda bastante: entregar livros/filmes “mastigados” para o público, julgando que ele seja incapaz de abstrair significado da obra sem que este seja mostrado explicitamente. Resta-nos garimpar e descobrir obras que se recusem a seguir “a modinha”.

      Obrigada pela visita e boas leituras.
      Abs

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