Viagem ao Centro da Terra

4 de fevereiro de 2013
in Category: Resenhas
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Viagem ao Centro da Terra

Viagem ao Centro da Terra

Viagem ao centro da Terra
Jules Verne

Adventos científicos são fascinantes. Não à toa, minha primeira escolha para profissão foi a área da informática. A ciência, quando aplicada em sua forma pura, é para mim um estado de arte. Uma descoberta, uma conclusão, um benefício que uma pesquisa, um experimento, uma tecnologia nova trás ou causa me é tão emocionante quanto um orgasmo. E, por isso, a ficção científica é um gênero tão instigante e motivador. Imaginar o futuro, o cruzamento dos limiares do conhecimento humano, o contato com o desconhecido… Sensações que não apenas geram histórias maravilhosas como influenciam o próprio avanço científico. Pois é perceptível que realidade e fantasia trocam influências constantemente.

jules verne

Todavia, tenho notado um fenômeno que me entristece um pouco: O avanço da ciência, de certa forma, também é capaz de tolher a ficção. Por mais imaginativa que seja, uma história precisa ter certo embasamento científico para que a imersão na obra seja viável. E, à medida que a ciência evolui e nos dá explicações sobre fenômenos e ambientes, fica mais difícil se equilibrar no limiar entre o instigante e o ridículo. Hoje em dia, por exemplo, seria pouco verossímil uma obra que conte uma invasão da terra por marcianos. Sabemos que Marte é um planeta inóspito à vida. Claro, muito depende a imaginação do escritor, mas ele teria de ser bem criativo para induzir a veracidade da história.

julio_verne_posAssim, confesso nutrir um pouco de inveja pelos escritores antigos que tinham um compromisso menos ferrenho com isso. Podiam ousar mais. Júlio Verne, considerado por muitos como o pai (ou um dos) da literatura fantástica, é um exemplo formidável. Este senhor tem extensa obra que divaga sobre os temas mais quixotescos da imaginação humana.

Entrei em contato com ele através de A Viagem ao Centro da Terra. Conta a história de um jovem e seu tio – um geólogo de renome – que encontram um documento atestando a possibilidade de acesso ao centro da terra e, claro, partem em viagem para lá sem saber ao certo sobre os perigos e a surpresas da empreitada.

É perceptível que Verne pesquisou geologia consideravelmente para compôr este trabalho. A terminologia e a forma arquetípica dos personagens demonstra que ele não fora inadvertido ao escrever. Aliás, nota interessante: A geologia era – muito provavelmente – uma ciência bastante fomentada na época. Algumas décadas depois, o mundo se voltaria à psicanálise. Assim como hoje em dia estamos em voga com física quântica, astronomia, genética, etc. A ciência dá o tema e a ficção, a propulsão.

Hoje em dia o mote pareceria um tanto enfadonho, mas nos idos de 1870, imagino a quantidade de pessoas ficaram aterrorizadas em supor um mundo paralelo, bem abaixo dos seus pés. Tamanho foi o estrondo que o legado desta e das outras obras do autor ainda reverberam em muitas e muitas criações atuais. Haja vista, como bem me lembra Cristine, os “Matrix”, “Avatares”, “Goonies” ou “Prometheus” da vida.

Afora o assunto principal e tão empolgante, Verne desenvolveu personagens totalmente fora dos arquétipos mais comuns de heróis. Seus protagonistas tem tantos defeitos que beiram ao perfil de anti-heróis. O sobrinho – narrador em primeira pessoa – conversa com o leitor variando seu modo de linguagem associada ao contexto, tornando-se mais poético quando fala de sua amada e mais vulgar ao, exalando covardia, reclamar da viagem e do tio. E este tio, por sua vez, é para mim a grande estrela do livro. Nada como um velho louco, monomaníaco e quase misantropo para me fazer apaixonar por um livro.

A linguagem é relativamente simples e, embora isso possa ser em mérito da tradução, acredito que provenha do original. A popularidade a obra é um indício disto. Os termos de geologia são deglutíveis e estão colocados no contexto. Diferente de Moby Dick que desenvolve uma tese de cetologia na maior parte do livro. Moby Dick é um saco.

Centro da Terra

Como todo livro que fala de um mundo fantástico, há muitas descrições. O que, de forma geral, pode ser um pouco cansativo. Verne, porém, utiliza a amplitude de palavras característica do século XIV, repetindo-as muito raramente em suas descrições.

O início da leitura é um pouco lento. Mas sou levado a pensar que tenha sido proposital. Que Verne teria usado a variação de fluidez do texto de forma serviente à história. Pois, conforme o grupo adentra as entranhas da terra, a leitura se torna mais dinâmica, excitante e difícil de largar. Algo típico dos gênios da literatura, diga-se de passagem.

É um excelente livro para escritores iniciantes. Denota a ousadia de ideias. Composição e concisão de personagens e linguagem. Também para o leitor despreocupado que apenas espera uma ótima diversão. Um saboroso prato. Daquele tipo que comemos ligeiro e com gosto, mas lamentamos ter acabado tão rápido.

Vale um Capuccino
4 out of 5 stars

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