Um cafezinho com Jorge Ialanji Filholini

15 de agosto de 2020
in Category: Entrevistas, Miscelânea
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Um cafezinho com Jorge Ialanji Filholini

Um cafezinho com Jorge Ialanji Filholini

Depois de ler a resenha de Somente nos cinemas, que tal conhecer um pouco mais sobre o autor? Jorge Ialanji Filholini topou responder a algumas perguntas e matar nossa curiosidade sobre algumas coisas.

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Jorge Ialanji Filholini


 
 
Jorge Ialanji Filholini nasceu em São Paulo, mas viveu mais de vinte e cinco anos em São Carlos, interior do Estado. É escritor, produtor, fotógrafo e editor. É fundador do site cultural Livre Opinião – Ideias em Debate. Em 2016, publicou o livro de contos “Somos mais limpos pela manhã” (Selo Demônio Negro), finalista do Prêmio Jabuti. Em 2019, lançou o livro de contos “Somente nos cinemas” (Ateliê Editorial), em que aborda suas duas paixões: cinema e literatura. Atualmente, mora em São Paulo.
 
 
 
 
 

De onde – ou de que – veio a primeira ideia para escrever “Somente nos cinemas”?

JIF: Surgiu após eu rever o filme “Harry e Sally – Feitos um para o outro”, aquela ideia de construir a narrativa de um filme romântico com interferências de casais reais – em formato documental – muito me interessaram, pois eram diferentes do habitual para as fitas daquele gênero, graças ao roteiro muito bem desenvolvido pela Nora Ephron. Este tema me deu uma ideia de elaborar um conto sobre um jovem casal, no início dos anos 2000, na cidade São Carlos, onde morei por mais de vinte e cinco anos. O que juntaria eles seriam a vivência universitária, o Bar do Amaral e o cinema. Daí surgiu o conto “Bianca Movies”. Enviei para amigos lerem, pois era uma narrativa muito diferente das que eu vinha escrevendo. Sem sangue (risos). Um desses amigos que me respondeu já com uma motivação e ideia foi o escritor Marcelino Freire. Ele me disse que ali, em “Bianca Movies”, estava o meu estilo de escrita. Uma história. Ou várias histórias. Trazer o cinema para os enredos. ‘Somente nos cinemas’ tem amor, interior de São Paulo, juventude, saudade, vingança, amores, questões sociais, memórias, comédia e, com certeza, filmes, em uma colcha de retalhos feita com película literária.
 
 

Você não teve receio de que os não-cinéfilos desfrutassem menos do livro? Seja por desconhecer as referências aos filmes, seja por não se identificar tanto com os personagens/narradores, seja por não perceber a relação entre o estilo dos textos e as etapas de produção de um filme, ou qualquer outro motivo.

JIF: Acredito que não. Eu sempre digo que os filmes estão ali fazendo parte do livro como atores. São personagens da história. Eles servem os leitores sem a necessidade de conhecimento cinematográfico. A paixão está ali, isto o leitor e a leitora irão sentir. Imagine se Guimarães Rosa tivesse que explicar o que significa “Nonada”. Ou que Clarice Lispector tivesse que avisar o momento exato em que seu texto entrasse no fluxo de consciência.
 
 

Dois livros, duas coletâneas de contos. Tem algum projeto, mesmo que incipiente, de escrever um romance? Caso afirmativo, pode falar um pouco a respeito? Caso negativo, há algum motivo específico para não se lançar nessa aventura?

JIF: Tenho preguiça e perco o fio da meada da trama e personagens. Sou de abandonar muito rápido uma história. Há também o cuidado mental quando encerro os textos, pois saio, muitas vezes, destruído deles. Gosto de histórias curtas, cheguei e falei o que tinha que falar e caio fora. Gosto de uma fala de Julio Cortázar no livro “Aulas de Literatura”, em que ele proferiu em Berkeley, no ano de 1980. É assim: “Eu escrevia como se costuma fazer no início de uma carreira literária: sem suficiente autocrítica, dizendo em quatro frases o que se pode dizer em uma e esquecendo-me do que deveria dizer”.
 
 

Você tem alguma rotina de escrita? É matutino, vespertino, noturno? E, mesmo que não tenha um horário fixo, tem algum “ritual”? Local específico da casa, uma bebida, um estilo de música para ouvir.

JIF: A rua é o meu bloco de notas. O escritor e a escritora precisam sair para construir o seu livro. Estarem atentos. Há tantas histórias quando dobramos uma esquina. É na rua que reverbera o personagem, a ideia, a história o choque literário. A escrita é movimento. Cada palavra é um passo em cima do asfalto e do papel. Vai na maciota ou vai acelerando. Eu vou à rua para escrever. Anoto. A rua me veste com as roupas da contemporaneidade. Me enchem de sinônimos, letras, frases. Pluralidades. Me apresenta o hoje. A reflexão do agora. O escritor e a escritora são do agora. O agora está lá fora. Mesmo na pandemia. Pela janela, pelo portão, você consegue escrever o hoje. A rua lhe fornece a ideia, a reação. A vingança. A luta e o alcance de compreender, mesmo que por um quarteirão, as frases e situações que colocarei em meus textos.
 
 

Ainda sobre escrita, como é seu processo? Referenciando Stephen King, você é um escritor arquiteto ou jardineiro? Tem tudo planejado previamente ou vai escrevendo e vendo o que acontece?

JIF: Eu planejo apenas a primeira frase. Gosto de iniciar assim a minha escrita. E, a partir dela, eu vou desenvolvendo a narrativa.
 
 

Para finalizar, pode dar sugestões de livros e filmes para curtir durante a quarentena?

JIF: Livros:

  • Um corpo negro, de Lubi Prates
  • As Mulheres de Tijucopapo, de Marilene Felinto
  • Eu sou macuxi e outras histórias, de Julie Dorrico
  • Eu, empregada doméstica – A Senzala Moderna é o Quartinho da Empregada, de Preta-Rara
  • Um Exu em Nova York, de Cidinha da Silva

Filmes:

  • Zama, de Lucrecia Martel
  • Atlantique, de Mati Diop
  • Retrato de uma jovem em chamas, de Céline Sciamma
  • Amor maldito, de Adélia Sampaio
  • Durval Discos, Anna Muylaert

Mais indicações:

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