3 de abril de 2017, 18:11 - Cristine
Além do livro, Escrita    sem comentários

8 motivos por que mesmo um bom livro é rejeitado pelos editores

»» versão do artigo “Eight reasons that even a good book is rejected by publishers”, escrito por Kanishka Gupta, publicado em 25/03/2017 no Scroll.in ««

Um agente literário apresenta os fatores que levam à aceitação – ou rejeição – de um original

Há alguns anos, como aspirante a escritor com brilho no olhar, costumava gastar a maior parte de minhas horas acordado com livros do Yahoo e salas de char sobre literatura na companhia de colegas aspirantes a escritor. Lembro muito bem que um dos principais tópicos das conversas costumava ser a quantidade de cartas de rejeição que cada um tinha recebido naquele dia (ou na semana anterior), agentes/editores que haviam solicitado uma sinopse ou proposta de livro e que nem haviam se dado ao trabalho de responder. Todos nós estávamos unidos pela sensação iminente de incertitude, suspense e a percepção palpável de que as probabilidades estavam contra nós.

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Hoje, tendo passado mais de sete anos do outro lado, inicialmente como consultor e depois como agente, acho que muitos escritores têm noções equivocadas sobre essas rejeições. Enquanto a maioria dos livros é rejeitada por sua baixa qualidade e por incompetência (como deveria ser), há alguns outros fatores que têm um papel decisivo nas decisões editoriais. E elas afetam “bons” livros também.

Um livro sem mercado

Bons livros são muitas vezes rejeitados nas reuniões de compras nas editoras, onde pessoal de marketing e vendas trabalha no público-alvo, possíveis tiragens e margens de lucro. Rejeições são mais comuns com ficção (especialmente ficção de gênero), poesia e coletâneas de contos. Alguns editores alteraram suas tiragens mínimas de 2-3 mil para 5 mil cópias.

Como resultado, livros com um público leitor menor que 3 mil compradores estão sendo dispensados. Isso explica parcialmente a mudança notória para a publicação de livros escritos ou, ao menos, conduzidos por celebridades ou livros “para as massas” como os de Savi Sharma e Ahay k. Pandey.

Um livro de um escritor sem contatos ou habilidades de marketing

Solicita-se cada vez mais que os escritores estejam fortemente envolvidos na divulgação de seus livros. Enquanto alguns estão abertos a isso, outros acham que sua obra deve falar por eles. Uma questão frequenta aos escritores é: Quantos livros você consegue vender dentro do seu círculo de conhecidos – seja profissional ou pessoal?

Às vezes, um escritor também é questionado sobre seus contatos com a mídia e com celebridades e influenciadores que podem ser usados para escrever blurbs ou impulsionar eventos de lançamento. Numa era de festivais literárias, ajuda conhecer alguns organizadores desses festivais também. Livros acima da média às vezes são rejeitados pela ausência desses contatos ou compromissos.

Um livro de um autor com um insucesso no passado

A estreia de um escritor é uma mercadoria desconhecida mas, para autores publicados, a receptividade de seu livro mais recente depende muito das vendas de seus livros anteriores. A ironia disso é que às vezes leva à rejeição de um trabalho novo e melhor simplesmente porque os anteriores não tiveram vendas significativas. No mundo editorial, um autor estreante desconhecido é considerado comercialmente mais viável que um autor conhecido com um histórico de vendas ruim.

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Um livro de um gênero que o editor não obteve sucesso

Muitas vezes, bons livros têm de pagar o preço por livros do mesmo gênero que falharam com este editor. Alguns editores se recusam até mesmo a considerar tais livros, então a qualidade tem muito pouco a ver com a decisão. Uma editora rejeitou recentemente uma obra bem realizada de ficção história de um de meus cliente que enviei, apesar de cinco relatórios de leitura positivos. Seus motivos: “O setor de vendas entende que ficção história neste contexto particular não funcionou bem no passado.”

O autor acabou publicando uma versão para Kindle e o livro não está disponível em nenhuma livraria. Demorei mais de 7 meses para vender um livro de fantasia porque todos os editores consideravam fantasia indiana um gênero que não decolou. Apenas um pinhado de editores realmente se deram ao trabalho de ler o que ela tinha escrito.

Um livro com um tema familiar

Há apenas um número finito de ideias que podem preencher um livro inteiro. Às vezes, uma proposta de livro não funciona pois um editor pode ser publicado algo semelhante no passado ou está a ponto de fazê-lo. Bastam apenas alguns minutos para qualquer editor bem informado procurar, digamos, na Amazon, por livros com a mesma temática.

Enfrentei esse problema enquanto estava trabalhando um livro sobre a Haldirams, rede indiana de salgadinhos, escrito por um jornalista bom visto. Apenas alguns dias depois de aprontar nossa proposta, fiquei sabendo que um livro sobre o mesmo assunto já estava pronto para ser impresso. Esse fenômeno é mais comum em não-ficção (especialmente biografias e atualidades) que em ficção, porque no fim o e enredo e a técnica podem ser significamente diferentes apesar de um pano de fundo comum.

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Um livro avaliado pelo editor errado

Autores frquentemente acabam enviando seus originais ao editor errado: um livro comercial pode acabar no inbox de um editor mais literário, ou um título mais espiritual no inbox de um editor de atualidades. Mesmo quando os originais possam ter chegado ao editor certo, eles podem não estar muito familiarizados com o assunto. Até o mais cuidadoso dos editores não irá se comprometer com um livro publicável se ele não se considerar capaz de acrescentar algum valor a ele. Tais submissões indevidas são oportunidades desperdiçadas, uma vez que editoras raramente reconsideram livros, mesmo quando notam que podem ter sido lidos por um editor inadequado.

Um livro que trai a ideologia ou as crenças do editor

Considerando que isso seja raro e que queremos crer que todos os editores são objetivos, ainda assim um livro pode ser rejeitado por causa da ideologia sócio-política de um editor. Tive muita dificuldade para encontrar uma editora para um livro sobre o papel do RSS (N.T.: Rashtriya Swayamsewak Sangh – organização paramilitar nacionalista hindu) na vitória eleitoral do BJP (N.T.: Bharatiya Janata Party – um dos dos maiores partidos políticos da Índia) em Assam, uma vez que muitos editores não queriam se ver envolvidos na edição de um livro que fala sobre as habilidadaes do RSS. Às vezes, editores rejeitam biografias ou memórias muito vendáveis apenas por não admirar o assunto.

Um livro muito caro para produzir

Considerando que temos apenas alguns editores de livros de fotografia no país, livros de alguns outros gêneros como HQs ou livros de culinária mais caros rotineiramente são rejeitados por conta do custo proibitivo de produção. Por exemplo, fui incapaz de vender o livro ilustrado do desenhista paquistanês Aziza Ahmad apesar do considerável interesse de vários editores importantes. Um livro peculiar sobre uma garota que flutua, que é interativo e ilustrado, o que significa um alto custo de produção e, portanto, menor margem de lucro.


kanishka-gupta
Sobre o autor:
Kanishka Gupta é o CEO da Writer’s Side, a maior agência literária do sul da Ásia.
 
 


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