6 lições de escrita de “Janela indiscreta”

3 de abril de 2014
in Category: Dicas, Escrita
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6 lições de escrita de “Janela indiscreta”

»» fonte: “6 Writing lessons from Alfred Hitchcock’s Rear Window”, artigo escrito por James Duncan, publicado no Writer’s Digest, em 15/01/2014 ««

Cheguei ao ponto de não conseguir assistir a um filme ou programa de tv, ler um livro, ouvir uma música ou jogar um video game sem pensar “O que isto pode me ensinar sobre escrita?” Ter assistido recentemente Janela Indiscreta me provocou alguns pensamentos.

Alerta de spoiler: Por favor, repare que estou considerando que você já assistiu ao filme. Então, se ainda não viu, por favor corra e assista agora. Depois volte e desfrute das sugestões sem risco de spoiler! O que se segue irá revelar alguns pontos importantes da trama. Cuidado, leitor!

6 lições de escrita de “Janela indiscreta"

1. Em caso de dúvida, lance dúvidas

Há uma ótima cena do nosso protagonista, vizinho xereta profissional em cadeira de rodas, L.B. Jefferies (James Stewart), assim que ele começa a desconfiar de seu vizinho Thorwald (Raymond Burr). Ele observa seu vizinho agindo de modo estranho durante a noite, mas pega no sono durante uma cena chave – quando Thorwald (que Jefferies suspeita ter matado a esposa) é visto saindo de seu apartamento com outra mulher um pouco antes do amanhecer. A esposa de Thorwald está realmente morta? Jefferies está enganado sobre Thorwald? O que essa cena faz por nós, espectadores?

Antes de mais nada, planta a semente da desconfiança de que talvez nosso protagonista esteja prestes a perturbar e acusar um homem inocente. E como Jefferies não viu a mulher misteriosa, ele ainda tem certeza de que Thorwald acabou com sua esposa naquela noite.

É certo que se ele não tivesse adormecido naquele momento, o filme poderia terminar ali mesmo. “Oh, lá está ela. Está tudo bem”. FIM.

Mas não estava bem, estava? Permitir que o leitor tenha mais informações que o protagonista, ou informações diferentes, é uma ótima maneira de fazer suspense – e se alguém sabia como fazer isso, esse alguém era Hitchcock! Você pode obter o mesmo efeito, saltando para outra cena sem a presença de seus personagens principais e deixando que eventos ocorram sem o conhecimento do herói ou da heroína – o mais simples e mais conhecido poder de uma narrativa em terceira pessoa. Mas isso pode ser feito em primeira pessoa também, simplesmente omitindo um detalhe ou exibindo fatos que contrariem a linha de pensamento do protagonista, através de personagens secundários ou boatos. Introduzindo esses fragmentos de informação conflitantes, vemos o protagonista se empenhando num “caso”, enquanto ficamos aflitos nos perguntando se o protagonista está certo apesar das evidências que ofuscam a verdade, ou se o protagonista acabará numa situação muito embaraçosa, talvez mortal, somente devido à sua imaginação fértil.

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2. Use ceticismo para ampliar as dúvidas

Ninguém acredita em Jefferies no início. Thorwald tem uma atitude estranha após a outra, e Jefferies tem de fazer o impossível para convencer Lisa, sua namorada linda e elegante – papel da primeira e única Grace Kelly – de que está certo. Seu antigo companheiro de guerra, agora um detetive, também não acredita nele, principalmente por conta de todas as evidência que ele encontra e que podem inocentar Thorwald. Por várias vezes, Jefferies procura amparo na lei e é rechaçado pelos fatos e pelo bom senso, até que seu amigo finalmente lhe diz para deixar de lado e cuidar da própria vida.
Ele fez isso? Lógico que não. Cada cético apenas serviu para convencer Jefferies ainda mais de que estava certo. Então, fique à vontade para colocar obstáculos no caminho de seu protagonista, e lembre-se de que são ainda mais efetivos se vierem de aliados confiáveis e de que devem levantar dúvidas razoáveis e lógicas para cada uma das suspeitas do protagonista.

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3. Doce ou característica!

Assim como toda criança fantasiada que bate à sua porta no Halloween consegue um doce, todo personagem secundário no seu livro merece uma característica. E Janela Indiscreta é repleta de personagens menores, cada um deles trazido à vida quase sem qualquer diálogo. Temos Miss Lonelyheart, uma senhora de meia-idade desesperada por um amor; Miss Torso, a dançarina do outro lado do pátio que vive no no andar de cima de onde mora uma escultora surda que mora em frente a um músico que está constantamente trabalhando numa composição para piano e que pode olhar pela janela e ver um casal vizinho que dorme na escada de incêncio, que possui um cãozinho xereta… um após o outro, após o outro. Com apenas uns poucos detalhes, Hitchcock dá vida ao personagem e torna-o memorável.

Pense nos seus personagens e lhes dê um diferencial… talvez aquele funcionário do Detran seja surdo ou seja conhecido por sua peruca torta, talvez a cunhada possua um ferret de estimação chato, talvez o protagonista chegue em casa e encontre a babá enchendo a casa de música tocando violão. Uma ou duas características diferentes do comum podem destacar personagens secundários aos olhos do leitor e, em comparação, fazer seus personagens principais parecerem preguiçosos, bondosos, enxeridos, inteligentes ou pedantes. Escrever uma novela é como fazer chili numa panela elétrica – cada ingredientes adiciona um pouco de sabor e afeta o resultado final, então divirta-se com os detalhes.

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4. Todos os cinco sentidos constroem uma boa atmosfera

A atmosfera construída por Hitchcock do começo ao fim deste filme é genial. Nós “ouvimos” música vinda de outros apartamentos, chuva caindo à noite, barulhos da rua, cachorros latingo; vemos através das janelas o que cada vizinho está fazendo, assim como vemos o por-do-sol, nuvens de chuva, e mesmo próprio Hitchcock; podemos quase sentir o gosto e o cheiro daquele jantar de lagosta que Lisa traz para Jefferies, o conhaque agitado nas taças enquanto eles entretem os convidados, a fumaça do charuto que Thorwald solta enquanto está sentado no escuro em seu apartamento; podemos “sentir” a coceira que Jefferies não consegue coçar enquanto está engessado, a vertigem (ah, James Stewart e seus problemas de vertigem) que ele sente quando está pendurado na janela, a luz intensa e cegante do flash que Jefferies mira num Thorwald homicida. Cada sentido e emoção são solicitados neste filme, criando uma brilhante sinfonia da vida real. Então, quando você estiver revendo as cenas que construiu para sua novela, pergunte-se “Que detalhe deixei de lado nas centenas de vezes em que imaginei esta cena? Que particularidade posso expor para revelar uma nova emoção, sentido, ou detalhe que construa a atmosfera desejada?” Considere essa questão cena a cena, capítulo a capítulo.

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5. Locação, locação, locação!

Toda a história se passa no apartamente de Jefferies enquanto ele olha por sua janela indiscreta. Sim, Hitchcock poeria ter mostrado o amigo detetive indo até a estação de trem conversar com testemunhas, ou poderia ter seguido Lisa até o apartamento de Thorwald mostrando o ponto de vista dela (o que poderia ser atterrorizante, mas não tanto quanto ver Thorwald se aproximando dela soa poucos). Mas não, tudo o que Hitchcock precisava estava ali naquele pátio, visível através da janela de Jefferies. E mesmo que isso pareça ser um artifício, há incontáveis peças e contos que fazem a mesma coisa, até mesmo algumas novelas (Assassinato no Expresso Oriente me vem à mente). E apesar de você não precisar ter apenas uma locação, você PRECISA ter uma locação boa, ou várias boas. Sua locação pode construir ou destruir sua novela, então tenha certeza de selecionar o local correto para seus personagens, um lugar que faça aflorar suas melhores ou piores qualidades, um lugar que possa perturbar sua capacidade de ser um narrador confiável ou um personagem totalmente consciente, um lugar que os retira da sua zona de conforto. Desafioe-os com um ambiente único!

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6. Justaposição é algo TÃO romântico

O romance entre Jefferies e Lisa fica cada vez mais tenso simplesmente porque eles não parecem feitos um para o outro. Jefferies é um fotógrafo aventureiro que se sente em casa num jipe enlameado, enquanto Lisa é a socialite elegante de Nova York que sempre (eu digo sempre) se veste caprichosamente. Constantemente, ele lhe diz que ela é muito boa para ele e que ele não foi feito para o seu mundo certinho. Mas seus olhares de desejo quando ela sai e a preocupação que ele demonstra quando ela está em perigo (assim como a admiração que ele demonstra quando ela sobrevive) claramente nos mostram que podem não ser farinha do mesmo saco, mas há muito amor ali.

E nas suas diferenças, cada um tem o que o outro precisa para viver. Jefferies talvez não goste de admitir que se sente sozinho na estrada e diverte-se sendo mimado por Lisa com jantares e visitas; e Lisa encontra no relacionamento tanto estabilidade (escolhendo passar a noite com ele e fazer-lhe companhia) quanto um grande deleite pelos percalços aventurescos dele. Ele é um homem desafiador, e como o personagem dela revela a toda hora, ela está sempre pronta para um desafio. Seu relacionamento vai de encontro a todo modo de vida estruturado de Nova York. São polos opostos, e ainda assim preenchem os vazios da vida um do outro.

Agora imagine que ele fosse um corretor de imóveis ou um banqueiro rico em vez de um fotógrafo. Ou imagine que ela fosse uma repórter de viagens ou um piloto em vez de uma socialite. Eles seriam tão felizes quanto moluscos, personalizados para o estilo de vida de cada um, e certamente não se perguntariam nem por um segundo o que acontece além das suas janelas. Meio chato, não? Ao invés disso, eles são instigados, confundidos, feridos, curiosos sobre o que cada um pensa assim como os demais vivem suas próprias vidas.. o que leva ao assassinato misterioso que une Lisa e Jefferies para sempre. Serem opostos não apenas conduz a trama, mas seu romance também.

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