8 de novembro de 2014, 11:56 - Cristine
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Um cafezinho com Luiz Valério

“Eu não escrevo para mim, e sim para as pessoas; como se eu estivesse conversando com os meus leitores”.

Entrevista com Luiz Valério de Paula Trindade, autor da obra Artesão das Palavras
(Por Jana Lauxen)

Luiz Valério de Paula Trindade (www.luizvalerio.com.br) nasceu em São Paulo, e descobriu o encanto dos livros aos 15 anos, graças a um professor que lhe mostrou que a literatura é um lazer, e não um dever.

De leitor, não demorou até Luiz Valério se aventurar como escritor, escrevendo crônicas e poesias inspiradas em seu cotidiano, e nas observações que registrava das pessoas e da vida que acontecia em sua volta.

Foi somente em janeiro de 2014 que Luiz resolveu tirar seus escritos da gaveta – literalmente, já que o autor costuma escrever primeiro à mão, para somente depois do texto concluído passá-lo para o computador. Como nos velhos tempos.

Luiz Valério participou de um curso oferecido pela Escola de Escritores da Editora Scortecci, em São Paulo, e não parou mais.

Recentemente lançou seu livro de estreia, Artesão das Palavras, obra que reúne crônicas e poesias versando sobre os mais diferentes assuntos.

Tive a oportunidade de conversar com o escritor sobre seu trabalho, sobre o lançamento de seu livro, a recepção do público leitor, e os deleites e dissabores de ser um autor estreante no Brasil.

Confira na íntegra a conversa.

Artesão das Palavras - Capa


JL: Quem é Luiz Valério de Paula Trindade?

Luiz Valério: É difícil falar sobre si próprio, pois se pode incorrer em excessos ou carências de informações. No entanto, diria que me vejo basicamente como uma pessoa bastante observadora, detalhista e inquieta, no sentido de estar sempre em busca de oportunidades de melhoria e de formas diferentes de expressar os meus pensamentos e visão de mundo.


JL: Como, quando e por que surgiu a ideia de escrever o livro Artesão das Palavras?

Luiz Valério: O desejo de me tornar escritor já me acompanha há muitos anos. Contudo, em janeiro de 2014 tive a oportunidade de participar de um curso para escritores oferecido pela Escola de Escritores da Editora Scortecci, em São Paulo, e avalio que ele me ajudou tremendamente, e foi praticamente um divisor de águas. Em primeiro lugar, como escrever é uma atividade bastante solitária, estar em contato com outros autores foi uma experiência extremamente rica, pois foi possível trocar ideias, pontos de vista, e compreender as semelhanças e diferenças em termos de processo criativo. Em segundo lugar, o curso representou uma abertura de horizontes muito grande, e me permitiu constatar que era possível sim concretizar esta aspiração. Na sequência, procurei organizar e lapidar os textos que já possuía, bem como produzir outros, para viabilizar a elaboração do livro.


JL: Como está sendo a recepção do público em relação à sua obra, Artesão das Palavras?

Luiz Valério: Felizmente a recepção tem sido bastante positiva. Às vezes recebo o feedback de leitores afirmando que se identificaram com alguns dos textos, ou então que sentiram como se tivessem sido escritos especialmente para eles. Há também algumas pessoas que dizem concordar com as questões levantadas em algumas crônicas, e parabenizam a forma como as ideias foram apresentadas. Sob o meu ponto de vista, este tipo de manifestação representa a maior recompensa que eu poderia ter, pois sinaliza que os textos estão cumprindo sua função de tocar as pessoas, ou então de estimular a reflexão.


JL: Por que você escreve? A literatura, para você, é lazer ou dever?

Luiz Valério: Eu escrevo primeiramente por que sinto um grande prazer nesta atividade e, em segundo lugar, por que acredito que tenho algo a dizer e compartilhar com as pessoas por intermédio da escrita. Curiosamente, até a minha pré-adolescência a literatura representava um dever. No entanto, quando ingressei no Segundo Grau (o atual Ensino Médio), tive um professor de Literatura Brasileira que foi absolutamente fantástico: o Sr. José Israel Dolor. Ele nos ensinou a matéria de uma forma tão envolvente e interessante, que ela deixou de ser uma obrigação e, pelo menos pra mim, transformou-se em um prazer que nunca mais me abandonou. Ele fez diferença em minha vida.


JL: Você já disse que seu livro se chama Artesão das Palavras porque vê o trabalho do escritor como o trabalho do artesão, que molda o barro bruto até que se transforme em um belo vaso. Da mesma maneira o escritor, que “se municia de um grande conjunto de palavras soltas”, e vai moldando-as até que se transformem em um belo texto.
Para você, literatura é mais transpiração do que inspiração?

Luiz Valério: Considero que é uma mescla de ambos, pois desenvolver literatura requer uma boa dose de inspiração, mas também de transpiração, pois é necessário muita dedicação e trabalho árduo para se produzir bons textos, que signifiquem algo e sejam agradáveis para seus leitores.


JL: Artesão das Palavras é um livro de crônicas que tratam dos mais variados temas, como arrependimento, envelhecimento, felicidade, maternidade, regras, e até sobre o Padrão FIFA. Como você definiu a temática dos textos?

Luiz Valério: Entendo que o próprio dia a dia representa uma rica fonte de inspiração para a elaboração dos textos. Sendo assim, a maioria absoluta das crônicas que escrevi são provenientes de muita observação e análise crítica do cotidiano, de circunstâncias que afetam a maioria das pessoas. Talvez seja por esse motivo que os leitores se identifiquem, pois percebem que se tratam de situações totalmente verossímeis e dentro de sua própria realidade.


JL: Como você vê o mercado editorial para o novo autor?

Luiz Valério: É muito difícil para um autor novato se posicionar no mercado editorial, pois grande parte das editoras não possui interesse comercial em apostar em novos talentos. Elas preferem se manter atreladas a autores conhecidos (e que vendem), ou então pagar pelos direitos de tradução de obras estrangeiras, já consagradas em mercados mais maduros – sobretudo o norte-americano. Portanto, o desfio para os novos autores brasileiros é bem considerável.


JL: Quais as principais dificuldades que encontrou para lançar a obra Artesão das Palavras? E como estas dificuldades foram superadas?

Luiz Valério: O livro é uma autoprodução com tiragem mais modesta do que se tivesse sido patrocinado por uma editora. Sendo assim, naturalmente as dificuldades foram de ordem orçamentária, na medida em que se torna bem mais difícil realizar grandes campanhas de comunicação e marketing para tornar a obra conhecida do maior número possível de pessoas.


JL: Você possui alguma rotina específica no momento de escrever? Se sim, qual/quais?

Luiz Valério: Eu não classifico como uma rotina propriamente dita, pois ainda não me tornei um escritor em tempo integral. Sendo assim, o que costumo fazer é sempre ter um caderno de anotações comigo, o tempo todo, pois se surge alguma ideia ou inspiração, não importando onde seja, eu saco dele e de uma caneta, e escrevo. Se for possível, eu escrevo o texto do começo ao fim. Em contrapartida, se noto que não será possível finalizá-lo naquele momento, eu traço as principais linhas mestras para não perder a ideia central, e o concluo em outra oportunidade.
Outro costume pessoal é escrever todos os meus textos à mão, até que eu sinta que estão praticamente finalizados. Somente a partir deste instante é que vou para o computador para digitá-los. Eu sinto que, ao escrevê-los à mão, o pensamento flui com muito mais naturalidade e liberdade do que se eu já partisse para digitá-los logo de imediato.

luiz valerio


JL: Você costuma ter ideias para escrever um texto em lugares inapropriados, como na fila do banco ou na cadeira do dentista? Caso sim, o que faz para não perder a ideia que lhe surgiu?

Luiz Valério: Entendo que as ideias e inspirações não escolhem lugar para se manifestar. Então procuro ter sempre um caderno comigo. Se estiver na fila do banco, já faço minhas anotações ali mesmo. Se estiver no metrô indo para o trabalho, e surgir algum pensamento, também procuro registrá-lo no caderno. Por outro lado, se estiver em algum lugar ou situação que não me permita escrever nada, tento manter a ideia no meu pensamento o mais vivamente possível e, assim que tiver oportunidade, anotar pelo menos algumas palavras-chaves que me permitam lembrar-se da ideia central posteriormente, desenvolvendo então o texto por completo.


JL: Na última década, podemos afirmar que a literatura democratizou-se, permitindo que mais pessoas publicassem seu primeiro livro. Se por um lado esta mudança no cenário editorial foi positiva, já que permitiu que escritores talentosos emergissem, por outro também resultou no lançamento de um grande número de livros sem qualquer aprimoramento, sem qualquer preparação ou profissionalismo.
Para você, quais as principais vantagens e desvantagens desta abertura do mercado editorial para os novos autores?

Luiz Valério: Considero a democratização, propiciada sobretudo pelos avanços tecnológicos, algo altamente positivo. Eu mesmo me beneficiei destes avanços, pois, se assim não fosse, dificilmente teria conseguido tirar os meus textos da gaveta e transformá-los em um livro de fato.
Contudo, não obstante estes avanços, entendo que é importante que os novos autores, que adotam a autoprodução, procurem ter o mesmo cuidado que autores patrocinados por editoras têm com relação aos seus livros. Ou seja, sua obra precisa passar pelo crivo de um profissional de revisão gramatical; a diagramação deve ser realizada por um especialista da área; a capa carece ser produzida de forma inteligente; é imprescindível também que a obra possua registro de ISBN, registro dos direitos autorais na Biblioteca Nacional, encadernação e impressão de qualidade, e tudo o mais.
Ou seja, é preciso ter em mente que seu livro é um veículo que irá transmitir seus textos para o público leitor e, como tal, ele demanda um mínimo de esmero e cuidados para que seu trabalho seja valorizado. Trata-se de uma deferência necessária para com seus leitores, e até consigo mesmo.


JL: A internet promoveu uma verdadeira revolução na maneira como vivemos e nos relacionamos. Hoje, um autor pode saber em tempo real a opinião do público sobre seu texto – e os leitores parecem cada vez mais opinativos e exigentes.
Quando está escrevendo, você procura avaliar o que os leitores pensarão sobre seu texto, quando o publicar? Caso sim, esta avaliação já fez com que você mudasse a temática ou o teor de uma determinada crônica, por exemplo?

Luiz Valério: Até o presente momento, nunca tive de mudar ou adaptar uma crônica em função de opiniões externas. Quando escrevo meus textos, eu não os escrevo para mim, e sim para as pessoas que irão lê-los. E parte do meu processo mental de criação se desenvolve como se eu estivesse conversando com os meus leitores. Isso me ajuda a manter uma aproximação maior com eles, e elevar o nível de empatia.


JL: Qual a sua opinião sobre prêmios literários, como o Prêmio Jabuti, o Prêmio São Paulo de Literatura, e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura? Você pretende inscrever sua obra, Artesão das Palavras, para concorrer em alguma premiação? Se sim, em qual/quais?

Luiz Valério: Sou muito favorável aos prêmios literários, pois entendo que eles representam uma importante vitrine de divulgação e revelação de novos autores. Até este momento, ainda não planejei inscrever o meu trabalho em prêmios literários, pois estou me esforçando para tornar a obra conhecida. No entanto, não descarto a possibilidade em um futuro próximo.


JL: Em sua opinião, dá para viver de literatura no Brasil?

Luiz Valério: Entendo que são poucos os autores que conseguem viver exclusivamente de literatura no Brasil. Os que assim o fazem, são predominantemente escritores já experientes, que construíram uma reputação sólida ao longo dos anos, e possuem um público cativo. É difícil atingir este estágio. Demanda tempo, dedicação, muita perseverança e, obviamente, muito talento também.


JL: E para finalizar, quais são teus planos para o futuro, Luiz?

Luiz Valério: Artesão das Palavras é minha obra de estreia, mas seguramente não pretendo parar por aqui. Longe disso. Primeiramente pretendo me esforçar para tornar este trabalho conhecido do maior número possível de pessoas, para construir uma reputação literária. Marcar posição no mercado e na mente dos leitores.
Ao longo do ano que vem pretendo lançar outro livro de crônicas e, mais adiante, procurar me desenvolver para, quem sabe, explorar outros gêneros literários, como romances ou contos. Mas tudo no seu devido tempo, sem atropelos.


Jana Lauxen tem 29 anos e é escritora, autora dos livros Uma Carta por Benjamin
(2009) e O Túmulo do Ladrão (2013).

Página na internet: www.janalauxen.com

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