O jogo da amarelinha

11 de setembro de 2014
in Category: Resenhas
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O jogo da amarelinha

O jogo da amarelinha

O jogo da amarelinha
Julio Cortázar

»» resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 03/09/2014 ««

“Contrarromance”, “crônica de uma loucura”, “buraco negro de um enorme funil”, “um grito de alerta”, “uma chamada à desordem necessária”, “um balbucio”… Com essas e outras expressões se aludiu a O jogo da amarelinha, romance com o qual Julio Cortázar começou a sonhar em 1958 e que seria seu livro mais emblemático. Lançada em junho de 1963 na Argentina – mudando a história da literatura e sacudindo a vida de milhares de jovens em todo o mundo –, a primeira edição de Rayuela vendeu cerca de cinco mil exemplares. Na ocasião, Julio Cortázar ainda não tinha completado 49 anos e já havia publicado sete livros. “Há livros que marcam a sua geração. Há livros que se tornam marca dessa geração aos olhos das seguintes. E há livros que nascem para ser eternos. Este, como poucos, pertence às três categorias. Publicado nos já míticos anos 60, O jogo da amarelinha teve imediatamente uma recepção extraordinária nas mais variadas línguas e latitudes”, conclui Ari Roitman, que assina o prefácio e a tradução desta obra-prima. A obra foi uma verdadeira revolução no romance em língua espanhola: pela primeira vez um escritor levava às últimas consequências a ideia de transgredir a ordem tradicional de uma história e a linguagem para contá-la. O resultado é este livro único, aberto a múltiplas leituras, repleto de humor, de riscos e de uma originalidade sem precedentes. Durante as últimas cinco décadas, O jogo da amarelinha vem sendo lido com curiosidade, assombro, interesse ou devoção. A ambição literária do autor e sua busca confessa por um leitor cúmplice se renova, assim como o próprio romance, a cada vez que é lido.

o jogo da amarelinha

Com um prólogo assim, não é de se estranhar que leitores atuais – entre os quais me incluo – peguem a obra para ler com uma expectativa estratosférica. E isso é um de seus problemas. Todo o “folclore” criado ao redor do livro, incitam no leitor inúmeras ideias preconcebidas, indo da dificuldade da leitura ao deslumbramento com a obra. E iniciar a leitura com essa carga emocional acarreta basicamente dois sentimentos:

  • Frustração: o leitor, mesmo apreciando o texto, sente-se um pouco desiludido pois queria ter gostado mais do livro (parafraseando aqui Kalebe, do blog Os Espanadores).
  • Logro: e esse mesmo leitor, sente-se enganado por tanta propaganda enganosa, com a certeza de que a obra foi valorizada em excesso, aclamada em excesso, analisada à exaustão; enfim, concluindo que não era “aquilo tudo que falam por aí”. Acrescente-se aí a ideia erroneamente disseminada de que a leitura não-linear sugerida pelo autor daria origem a uma história complemente diferente daquela resultante da leitura linear – indo do capítulo 1 ao 56, sem ler os capítulos prescindíveis. Na verdade, é indiferente, dá na mesma ler de um jeito ou de outro pois a história permanece a mesma, apenas com mais divagações filosóficas.

Há motivos para ser assim. E acredito que mesmo aqueles que deram a ela 5 estrelas no Goodreads concordem com o fato de que o livro ficou datado sob alguns aspectos. Não há como negar a criatividade estilística do autor. Contudo, há 50 anos certamente o impacto no leitor era exponencialmente maior que nos dias atuais. Nem mesmo o conceito “inovador” de seguir uma outra ordem de leitura dos capítulos deixou de ser novidade há muito tempo, desde o advento dos livros-jogo, uma febre nos anos 80, cujo melhor exemplo (IMHO) são os da coleção Give Yourself Goosebumps, de R.L.Stine, um spin-off dos Goosebumps regulars. Vale lembrar que, nestes, a sequência de leitura dos capítulos altera sim o rumo e o desfecho da história.

No romance, o leitor segue as andanças de Horácio Oliveira. É dividido em três partes: “Do lado de lá”, “Do lado de cá” e “De outros lados (Capítulos prescindíveis)”. Na primeira parte, ambientada em Paris (onde o livro foi escrito), acompanhamos o casal Horácio e Maga, e as reuniões com seus amigos, regadas com muita bebida, cigarros e jazz. Na segunda parte, Horácio está de volta a Argentina, onde reencontra um amigo, Traveler, e passa a conviver com ele e a esposa, Talita. A terceira parte é constituída pelos capítulos prescindíveis, aqueles que não fazem parte da leitura linear.

Mesmo lendo de forma direta, os capítulos oscilam entre eventos, digressões do protagonista e papos filosóficos entre os amigos, principalmente na primeira parte. Apesar de a segunda parte ter a cena que mais me chamou atenção depois do plot twist na primeira parte – a cena da tábua, que sei que desagrada a muitos – ela é bem mais insossa. Tem-se a impressão de que foi escrita às pressas e sem muito empenho por parte do autor. Não é o non-sense, nem o absurdo de algumas situações, nem a (quase) certeza de que o narrador não é confiável que incomodam, mas sim a nítida sensação de que há história de menos para tanto texto – ou, em bom português, muita encheção de linguiça. O excesso de capítulos que não acrescentam nada à narrativa quase obriga o leitor a fazer uma leitura superficial, o que causa um certo desconforto e até um pouco de remorso: “Eu deveria estar me dedicando mais”.

Julio+Cortazar

Julio Cortázar

Uma enorme quantidade de citações – a autores, filósofos, músicos, e outros – não chega a atrapalhar a fluidez da leitura caso o leitor não faça ideia do que se trata, mas deixa a impressão de que talvez a história pareceria mais interessante se quem lê souber do que se trata. Em outras leituras, eu eventualmente até paro a fim de procurar as referências. Mas neste caso, são tantas que passei batido por todas as que não fizeram sentido para mim. Possivelmente, muitas dessas referências eram assuntos “da moda” na época em que o livro foi escrito, sendo facilmente identificadas e contextualizadas pelos leitores de então.

Exceto pelos personagens principais, todos os outros parecem ser variações do mesmo. É quase impossível diferenciá-los, já que todos parecem ter a mesma voz narrativa. Se a intenção de Cortázar foi de construir personagens que deixassem o leitor incomodado por sua insipidez, sua falta de complexidade e sua chatice, seu objetivo foi atingido. É bastante tentador, quando conversam entre si, fazer uma leitura dinâmica até encontrar um parágrafo que volte a ser interessante. Em vários trechos, senti-me o próprio Charlie Brown em sala de aula, ouvindo sua professora: “Uon uón, uon uón uon, uon.” Nenhum deles consegue gerar muita identificação no leitor, pouco importando a este qual o destino dos personagens, o que certamente também dificulta a imersão na história.

Enfim, é inegável o valor da obra como experimento formal. Mas ter envelhecido mal atrapalha a apreciação dos leitores de hoje, além de sua fama de ser uma leitura difícil. Não é difícil, apenas perdeu seu poder de arrebatamento no passar dos anos.

“Poucos eram os autores que faziam seus personagens assobiarem. Praticamente nenhum. Eram condenados a um repertório bastante monótono de elocuções (dizer, responder, cantar, gritar, balbuciar, comentar, proferir, sussurrar, exclamar e declamar), mas nenhum herói ou heroína jamais coroava um grande momento das suas epopeias com um autêntico assobio, desses que racham os vidros.”
(p.41)

Vale um Macchiato
3 out of 5 stars

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10 comments on “O jogo da amarelinha”

  1. Kyanja Lee disse:

    Gostei da sinceridade! Já nos prepara para a leitura… Melhor ir mesmo com menos expectativa, né?

  2. Cristine Tellier disse:

    É verdade. Com o perdão do clichê, o monstro da expectativa atrapalhou bastante. Talvez numa releitura, já sabendo o que esperar, eu desfrute mais da obra. Mas por enquanto, vai lá para o final da fila (sempre muito longa).

  3. Martha Angelo disse:

    Aahaahahahha Assino embaixo! Foi uma grande decepção para mim ! Inclusive, o livro só é cultuado desta forma mesmo no Brasil, na Argentina nem pensar, consideram fraco e datado! Ainda assim alguns amam…não é o meu caso mesmo, nem consegui terminar; pra ser sincera…rs

  4. Martha Angelo disse:

    Rogerio Lopes isto te lembra algo ? 😛

  5. Cristine Tellier disse:

    Isso mesmo, Martha. Dia desses li um artigo falando justamente da supervalorização dessa e de outras obras de autores argentinos.

  6. Martha Angelo disse:

    Pois é, eu acho o Cortázar fera nos contos, mas compará-lo a estatura de um Borges, por exemplo, acho absurdo…e esse romance, ai como eu sofri, queria terminar para um Clube de Leitura…foi um parto kkk

  7. Kyanja Lee disse:

    Bem, já são duas opiniões. E confio no taco de ambas. Ainda lerei esse livro. Mas baixando a bola…rs.

  8. Na Argentina, muitos consideram Borges datado também. Há toda uma nova geração de autores que querem se afastar da influência dele… ou seja, não quer dizer absolutamente nada.

  9. Lua Limaverde disse:

    Olá, Cristine! Muito boa sua resenha, tivemos sentimentos muito parecidos em relação à leitura. Obrigada pela participação no fórum, vou acrescentar o link da sua resenha por lá. Beijo!

    1. Cristine disse:

      Olá Lua,
      Obrigada pela leitura. Enquanto lia o livro, fiquei pensando q era coisa minha não estar achando “aquilo tudo”. Mas depois, no clube de leitura, fiquei aliviada ao perceber q quase todos compartilhavam dessa impressão.
      Obrigada por incluir o link no fórum, e espero participar mais vezes.

      Abraços e boas leituras.

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