O Fogo e a Fênix

28 de setembro de 2014
in Category: Resenhas
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O Fogo e a Fênix

O Fogo e a Fênix

Este é o post de estreia do nosso novo colaborador, Thiago Prada. Conheçam um pouco mais sobre ele em seu blog: “Entre Deuses e Vermes“.
Esta resenha foi publicada originalmente em 16/10/2013.

O Fogo e a Fênix: As Cinzas De Uma Sociedade

“Existe gente demais, pensou. Somos bilhões e isso é excessivo. Ninguém conhece ninguém. Estranhos entram em nossa casa e nos violentam. Estranhos chegam e arrancam nosso coração. Estranhos chegam e nos tiram o sangue. Meu Deus, que homens eram esses? Nunca os vi em toda a minha vida!” (p. 37)

Clarisse entra em cena e tudo se modifica: o fogo primeiro e, logo depois, Clarisse. Seria esta personagem o verdadeiro fogo que, aos poucos, vai queimando as barreiras do personagem central da obra Farenheit 451? É ela a responsável por todos os acontecimentos ulteriores da trama, mesmo em sua ausência, é com ela que Montag começa a questionar seus atos e pensamentos, algo que na sociedade de Farenheit 451 não é nem sequer um ato proibido: tornou-se inimaginável e, entre o interdito e o não imaginável existe um abismo.

fahrenheit451

O primeiro ponto a se observar nesta distopia mais recente entre todas as distopias da literatura de ficção científica clássicas (as outras são Nós de Zamyátin, 1984 de Orwell e Admirável Mundo Novo de Huxley) é o quanto de não ficção científica ela possui: não há grandes aparatos tecnológicos, mecanismos complexos, na realidade, ao lermos este livro em 2013, podemos nos sentir imersos em sua descrição dos elementos tecnológicos nas casas e na cidade, o que nos leva a um segundo ponto que é o fato desta distopia não ser tanto uma distopia no seu sentido de um futuro distante na negatividade utópica, mas de que ela é assombrosamente uma realidade muito próxima da nossa, se não há os elementos de destruição e queima dos livros efetivamente, temos diversos outros elementos, a começar por um elemento clássico da distopia que é a presença do controle e poder totalitário em relação aos personagens.

Nas distopias clássicas citadas acima, temos a presença de um Estado totalitário como em Nós e 1984 ou de grandes corporações de produção do Soma e de controle genético e comportamental de todos os seres em Admirável Mundo Novo, mas em Farenheit 451 esse absoluto de um grande olho a nos vigiar do Grande Irmão não existe, na verdade, o controle é micro relacional, as pessoas se vigiam e se controlam o tempo todo sem a necessidade presente de um vigia maior, é possível aqui fazer uma analogia com a sociedade disciplinar que o pensador Michel Foucault descreve em seu livro Vigiar e Punir, cada um é vigia do outro através do olhar, a vigilância é individualizada. Neste sentido, Farenheit 451 se destaca por ser uma realidade mais próxima da nossa, em que os elementos do poder são mais microscópicos do que macro-estatais.

Outro ponto muito atual é a crítica que o autor realiza a imagem, sobretudo veiculada pela televisão, algumas relações são feitas por comentaristas com a “Industria Cultural” de Adorno e Horkheimer, na questão da massificação e controle dos produtos veiculados através da mídia, mas creio ser possível fazer uma relação com outra obra, de Guy Debord chamada A Sociedade do Espetáculo e a crítica de Pierre Bordieu sobre a televisão. O que dá para supor é que, pela narrativa do Capitão Beatty, os livros precisam ser queimados pois estimulam a imaginação, a criatividade, provocam o “por quê” e não somente o “como”, os livros, por serem descritivos, permitem a singularidade da fantasia, da criação na relação com a obra, ao passo que a imagem massificada gerada pela televisão não permitiria essa mediação com a imaginação posto que ela já traz um produto ponto para ser consumido diretamente, além do fato que as televisões descritas no livro trazem também a experiência da interatividade direta, ao vivo e sensitiva, algo muito próximo do que é o nosso facebook hoje, e nossas televisões que se tornam em 3D. Aqui se instala algo próximo do Soma em Admirável Mundo Novo, mas enquanto lá se trata de uma droga, aqui a televisão se torna o veículo do alheamento da realidade e do oferecimento da paz, da eliminação da angústia, nesta duas obras temos um tema recorrente de nossa contemporaneidade: a sobrevalorização da felicidade a qualquer custo. Este trecho abaixo é bem emblemático quanto a isto:

“Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-os com “fatos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto as informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, por fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de TV e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de ums reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido.” (pgs. 86-87)

Destes pontos destacados até agora decorre uma consequência: uma servidão voluntária pelo estado atual das coisas, com a eliminação dos livros e a invasão cada vez mais crescente da televisão nas casas, a memória é aos poucos apagada e, no final, cada um se torna satisfeito com a vida que mantém no novo sistema de funcionamento social, logo, os bombeiros são apenas um fogo de artifício:

“Os bombeiros raramente são necessários. o próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo em volta do qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédio incendiados, mas, na verdade, é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muitos poucos os que ainda querem ser rebeldes” (pgs 114-115)

Mas o ponto que mais acredito ser de vital importância no livro e que merece ser destacado, é o que chamarei de “banalidade do sentimento” numa relação direta com o conceito de Banalidade do mal da filósofa política Hannah Arendt, diversas ocorrências no livro são exemplos. Logo no começo, quando Montag começa a sofrer com sua angústia, sua esposa diz para que ele pegue o carro e saia dirigindo e atropele animais para aliviar a angústia, ou como a frase abaixa dita por uma personagem acerca do relacionamento com seus filhos:

“- meus filhos ficam na escola nove dias seguidos e depois elas têm um dia de folga. Eu os aguento em casa três dias por mês; não é nada de mais. A gente põe as crianças no “salão” e liga o interruptor. É como lavar roupa: é só enfiar as roupas sujas na máquina e fechar a tampa. – A sra. Bowles riu. – Para elas tanto faz me dar um chute ou um beijo. Graças a Deus, eu também sei chutar!” (p. 125)

Se não há exatamente um sistema burocrático de comando como no caso citado por Arendt, aqui talvez tenhamos chegado na radicalidade da banalidade do mal ou do sentimento: não é mais preciso um sistema visível que coloca as relações humanas dentro de um pensamento burocrático esvaziando a humanidade das pessoas e seus sentimentos, aqui, não há justificativas e sentido em nenhum ato, apenas a mecânica deles para realização para eliminar algum evento incômodo, a própria sociedade se encarrega desse esvaziamento, não há mais laço afetivo algum, o sonho metafísico racional se completa, não há mais emoções, mas, consequentemente, não há mais diálogos, trocas e pensamentos, morto o afeto fica o cadáver do corpo perambulando, reagindo tão somente aos estímulos da televisão, das imagens.

Para finalizar estas reflexões, dois pontos que surgem no final da obra: a importância da memória, da oralidade e um otimismo quanto a possibilidade de progresso na humanidade. O primeiro ponto fica claro nos seres humanos que rompem com o modo de ser da sociedade e, para salvaguardarem os livros eles o decoram e ficam conhecidos por ser tal e tal livro, afim de que todo o conteúdo seja transmitido oralmente para os herdeiros dessa humanidade, preservando o conhecimento, ou seja, ao contrário do imediatismo midiático, do encurtamento cada vez mais progressivo e veloz das palavras e do conteúdo (oi facebook), resgata-se uma tradição da transmissão oral na memória dos mais velhos que ainda tiveram acesso aos livros. O último ponto refere-se ao que um personagem cita sobre a fênix, pássaro mítico que se consome em chamas e renasce de suas próprias cinzas num eterno ciclo de morte e renascimento, para o personagem a humanidade seria como a fênix, mas teria a capacidade racional de perceber os erros passados e interromper este ciclo de destruição autofágica humana.

No final da obra acende-se uma pequena luz de esperança por parte do autor em relação aos homens na sua existência cíclica de destruição? Talvez ela estivesse contida na graça de Clarisse logo no início, porém, o que sobra no final são os homens se afastando de uma cidade destruída.

E Clarisse? Clarisse se foi e nunca mais voltou. O que dela restou foi a imagem do dente de leão em seu rosto. Clarisse amarela e brilhante, manchada pela flor, como se fosse uma gota de Sol. Clarisse morreu e todos nós ficamos vivos como se não o fôssemos.

Referências do texto:

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